
Coisas do Corao - Robin Jones Gunn
Srie Cris 4


Para Cristina Miller o semestre na escola vai ser muito legal. Ela j resolveu que quer ser uma das lderes de torcida da escola. Mas, alm dos testes de seleo
bastante difceis, vai ter de enfrentar Renn, a aluna do terceiro ano que morre de inveja dela e no quer deixar que ela entre na equipe.Mas Cris tem outros desafios 
pela frente: ela j planejou ir  festa de formatura com o Ted e est sonhando com esse momento. Mas... e se ele convidar outra garota? O jeito seria aceitar o convite 
do Ricky; mas ser que seus pais deixariam que ela sasse com 1 cara que eles nem conhecem direito? Parece que no vai ser nada fcil para Cris lidar com todos esses 
problemas ao mesmo tempo e ainda deixar 1 espao em seu corao para Deus. Afinal, tantos relacionamentos novos e interessantes, sentimentos, confidncias e grandes 
surpresas vo deixar Cris muito ocupada com as "coisas do corao".

Editora  Betania
Digitalizao: deisemat

www.portaldetonando.com.br/forumnovo/





Os Sonhos Tm Um Preo
1
       l-l,  l-l
      Os Cougars vm a
      Botando pra quebrar
      Cris Miller terminou o grito de guerra dando um longo salto. As outras meninas notaram quando ela se desequilibrou ligeiramente no final. - D um tempo, Cris! 
gritou uma das garotas. Isso  s um ensaio!
      - Eu sei, respondeu Cris, afastando o cabelo castanho do pescoo suado. Mas s faltam duas semanas para o teste final, Rene. Tenho de me esforar muito, se 
quiser ficar igual a vocs.
      Rene, com seus cabelos pretos e olhos escuros, com as mos na cintura, disse alto para as outras ouvirem:
      - Desista! Voc no tem jeito pra lder de torcida, Cris Miller.  uma principiante! Nunca vai alcanar nosso nvel!
      Cris baixou os olhos azul-esverdeados e tirou a franja da testa.
      - Gente do primeiro colegial pode tentar como todo mundo.
      Sua Inteno era que a declarao soasse firme e ameaadora, mas para Rene tinha o efeito de um gatinho indefeso, dando uma de valente.
      - Voc s chegou at aqui por causa do Rick Doyle. As palavras de Rene espetavam como lana. Mas em vez de doer, deixaram Cris meio confusa.
      - No vem com essa cara de inocente, continuou a outra. Ns sabemos que tem alguma coisa entre voc e o Rick.
      - Entre mim e o Rick? Somos muito amigos, se  o que voc quer dizer, replicou Cris.
      Detestava o jeito como todo mundo a olhava. No tinha bem certeza do que a Rene queria dizer.
      - , t certo. Apenas amigos. Coleguinhas, disse a jovem com cinismo.  por isso que o cara mais popular da escola fica junto duma garota mida que pensa que 
vai ser a estrela da torcida do ano que vem. Aposto que, se o Rick no tivesse vindo com voc para o ensaio no primeiro dia, nem tentaria competir.
      O corao de Cris batia em disparada. Sentia um n na garganta. Por que Rene a criticava assim?
      - Vamos l, Rene, interveio outra garota. Deixe-a em paz.
      No  culpa dela se o Rick no d bola pra voc.
      - Quem pediu sua opinio, Teresa? indagou Rene, virando-se furiosa para a outra menina, que juntava seus objetos para ir embora.
      -  Teri, disse ela por sobre os ombros. S a minha av me chama de Teresa. "Teresa Angelina Raquel Moreno", falou Teri imitando uma voz estridente com forte 
sotaque espanhol. E voc no  minha av, Rene. Pode me chamar de Teri, como todas as minhas amigas.
      O cabelo comprido de Teri balanava com seus passos. Era bvio que no se sentia ameaada pela Rene do jeito que Cris sentia.
      Rene lanou um olhar fulminante sobre Cris. Sua expresso era de desdm.
      - Voc no est  altura, Miller, insistiu. No tem categoria pra estar na torcida organizada, e definitivamente no est  altura do Rick Doyle.
      Dando uma pirueta exagerada em estilo de cheerleader*, Rene saiu do campo acompanhada por duas de suas amigas.
      *Cheerlander (literalmente "animadora de torcida"): garotas que nas escolas americanas so escolhidas para animar suas torcidas nos jogos da sua escola. Tem 
certa semelhana com as "balizas" das escolas brasileiras. (N.E.)
      Puxa! Por que todo esse escndalo? pensou Cris, sentindo as mos e os lbios tremerem. Qual o problema dessa menina? Que ser que fiz pra ela me tratar assim?
      Logo que chegou em casa, telefonou para sua melhor amiga, Katie, e contou-lhe o incidente.
      - Qual o problema da Rene? perguntou  amiga.
      -  o Rick. Ela gosta do Rick. Voc no sabia? respondeu Katie com sua voz alegre e segura.
      - Katie, quase todas as meninas do Colgio Kelley gostam do Rick. Ele e eu somos apenas bons amigos. Voc sabe disso.
      - Claro que sei, mas a Rene no. Ela pensa que ele vai convidar voc pra festa de formatura.
      - Festa de formatura! Sem essa! Por que ela pensaria isso? Alm do mais, os meus pais no me deixariam ir. Papai at disse algo sobre "mau ambiente". E tambm 
ficam me lembrando o tempo todo que eu ainda no completei dezesseis anos.
      - Bem, escuta essa, disse Katie entusiasmada. Ouvi dizer que a Rene convidou o Rick para o baile de formatura e ele recusou o convite.
      Est brincando! Por qu?!
      -  por isso que ela est to brava! Ele no disse por que, mas depois que a Rene conversou com um dos amigos dele, ficou achando que ele pretende convidar 
voc.
      - De jeito nenhum! Ele nunca me convidaria! Ele pode escolher entre dezenas de garotas, todas do terceiro ano. Alm disso, um cara que est-se formando deve 
levar uma colega da mesma classe. Afinal de contas,  o ltimo ano deles no colegial e tudo o mais.
      - Cris, v se desconfia! Ele quer ir com voc. O problema  que ele acha que voc no aceitaria ir com ele porque s poder namorar depois dos dezesseis anos.
      - Creio que no, Katie, falou ela enrolando o fio do telefone cm volta do dedo. Sou o tipo de garota que o Rick leva na gozao, continuou, e s telefona quando 
est entediado. No sou o tipo popular que ele levaria  festa de formatura. Talvez esteja esperando pra ver quem tem mais probabilidade de ser escolhida a rainha 
da festa.  essa que ele vai convidar.
      V se acorda, menina! No percebe o que est acontecendo? O Rick est transformando voc no tipo "lder de torcida", "rainha da festa". Voc  como uma massinha 
de modelar na mo dele. Ele vai transform-la na namorada perfeita.
      - Katie, essa  a coisa mais boba que voc j disse na vida!
      - Boba ou no,  a pura verdade!
      Um silncio frustrante pairou entre as duas.
      - Cris, no quero ferir seus sentimentos, disse Katie, sem a costumeira empolgao na voz. Mas se voc acha que estou enganada, responda com sinceridade apenas 
a uma pergunta.
      E aqui Katie parou.
      - O qu?
      Cris sabia que embora Katie frequentemente exagerasse no seu entusiasmo, s vezes tambm acertava nas observaes que fazia.
      - Pergunte a voc mesma: "Ser que eu teria me esforado pra ser lder de torcida se o Rick no me tivesse convencido e me levado ao treino no primeiro dia"?
      - Sim, respondeu Cris imediatamente. Eu teria ido sozinha!
      - No responda a mim. Responda a voc mesma. Com sinceridade. Se voc for sincera, acho que vai entender o que estou lhe dizendo. O Rick controla muito a sua 
vida, e voc nem percebe.
      Pelo menos uns vinte minutos depois que se falaram, Cris ainda permaneceu sentada no cho do corredor com as costas contra a parede e os ps calados de meias, 
tocando a parede do outro lado, vasculhando o corao, procurando uma resposta sincera  pergunta de Katie.
      O que mais a deixava confusa era o fato de que sempre quisera ser lder de torcida. Tinha pensado muito nisso quando anunciaram que haveria testes. Mas talvez 
Katie tivesse razo. No fundo, Cris nem tinha certeza de que arriscaria candidatar-se, no fosse a insistncia do Rick em ir junto com ela ao primeiro ensaio.
      O Ted tambm tinha muito a ver com o assunto. Se a Katie dissesse que o Ted exercia influncia sobre ela, bom, seria outra histria. Cris concordaria que o 
Ted sempre dava um jeito especial de desafi-la. Sempre fora assim.
      Surfista alto e loiro, de olhos azul-acinzentados, ele tornara-se muito especial para Cris. Exercia forte influncia sobre ela quando se tratava de coisas 
importantes.
      Apesar do Ted morar a quilmetros de distncia, quando pensava no assunto ou queria definir seu relacionamento com ele, ela o considerava como seu namorado. 
Eles s se viam umas duas vezes por ms, mas o Ted estava no seu corao. Para sempre. Nada mudaria isso. E o que era importante para o Ted, era tambm para a Cris.
      Puxou as meias perna acima e ficou a dobr-las e desdobr-las, lembrando-se da semana passada, a ltima vez que ficara assim no corredor, na noite que antecedera 
o primeiro ensaio para lder de torcida. Estava conversando pelo telefone com Ted. Cris tinha-lhe falado que pretendia candidatar-se a lder de torcida e ouviu-o 
com ateno, buscando seu incentivo e aprovao. Mas ele limitou-se a dizer apenas isto:
      - Acho que se voc o fizer, deve faz-lo para o Senhor.
      - Est querendo dizer que devo orar sobre a questo? perguntou.
      - Faz parte. Mas precisa estar disposta a se arriscar no seu campus e a tomar uma posio ao lado de Jesus. Se entrar para a torcida, poder usar essa posio 
para influenciar outras pessoas. Mas no poder simplesmente se misturar  turma e esperar que algum lhe pergunte que diferena faz termos Deus na nossa vida. Voc 
tem de demonstrar essa diferena.
      Cris pensou muito nas palavras do Ted, e naquela noite escreveu no dirio:
      Senhor, quero entrar nessa equipe de lderes de torcida para ti. Sei que o Ted est certo; se eu for lder de torcida as pessoas vo me olhar e respeitar. 
Isso me dar uma oportunidade melhor de dizer-lhes que sou  crist e talvez convid-las para ir comigo  igreja. S quero fazeo que for melhor, ser um bom exemplo 
para os outros.
      E agora, ao pensar de novo na situao, Cris eslava certa de que mesmo que o Rick no tivesse ido com ela ao primeiro ensaio, ela teria ido. Seu corao estava 
decidido, e como disse o Ted, ela faria aquilo para o Senhor.
      - Cris! gritou sua me da cozinha. J desligou o telefone? O jantar est pronto. Venha pr a mesa.
      - J vou! respondeu Cris, deixando no corredor suas idias sobre a torcida e indo arrumar a mesa.
      No jantar, David, seu irmo de nove anos, dominou a conversa. Cris, sua me e seu pai ficaram a escutar o garoto que imitava, com exagero proposital, a expresso 
do rosto da professora ao encontrar chicletes no apagador.
      Ela o achou engraado, mas jamais lhe diria isso. S serviria para incentivar ainda mais suas maluquices.
      Logo que David pediu licena e saiu da mesa, a me se inclinou, com um leve sorriso. Cris sabia que quando ela sorria assim, estava tentando criar um ambiente 
favorvel. Sabia tambm que a me estava prestes a dizer alguma coisa que provavelmente ela no estivesse com muita vontade de ouvir.
      - Eu e seu pai estivemos examinando o papel que voc trouxe da conselheira da torcida organizada, falou ela, e decidimos que voc ter de arranjar metade do 
dinheiro.
      - Metade! exclamou Cris.  mais de duzentos dlares!
      - Bem, comeou o pai devagar, com um tom de voz firme. Ser que voc realmente quer entrar nisso? Est disposta a se comprometer a no faltar aos treinos e 
aos jogos?
      - Sim, replicou Cris, tentando conter as lgrimas, que teimavam em cair.
      -  um alvo que compensa o esforo. Mas  tambm um compromisso muito grande, disse o pai. E caro. Achamos que voc deve assumir parte dessa responsabilidade.
      Cris queria protestar. Mas vocs no entendem! Tem mais coisa nisso. No se trata apenas de atingir um alvo! No d pra perceberem? Preciso fazer isso pra 
tornar-me melhor testemunha de minha f no colgio.
      Como  que vou levantar tanto dinheiro assim? indagou.
      Voc pode trabalhar como bab durante as frias. Pode arrumar servio com alguma famlia que tenha crianas pequenas. Talvez possa colocar um anncio na classe 
de escola dominical dos pequeninos de dois e trs anos que voc esteve ajudando nas ltimas semanas.
      - 'Irabalhar de bab durante as frias?
      Cris resolveu que no seria a melhor hora de anunciar aos pais que planejava passar as frias na praia de Newport com os tios Bob e Marta, como no ano passado. 
Nem ao menos pensara em passar as frias todas em casa, em Escondido, e menos ainda trabalhando de bab.
      - A deciso  sua, Cris, disse o pai. Se pensa mesmo em levar a srio esse negcio de lder de torcida, ns lhe daremos todo o apoio, e ainda acharemos um 
jeito de bancar metade do custo. Mas voc ter de fazer sua parte tambm.  hora de aprender que nada  de graa.
      - Eu quero. Quero tentar, disse Cris. Sua me recostou-se na cadeira.
      - Antes de dar uma resposta final, por que no pensa mais um pouco sobre o assunto? E, por falar nisso, voc tem muito dever de casa?
      - Toneladas.
      - Eu arrumo a cozinha, ofereceu-se a me. Amanh  noite voc arruma.  melhor enfrentar seus trabalhos de escola.
      Na privacidade de seu quarto, Cris descobriu que era impossvel concentrar-se nas "toneladas" de dever de casa. Deu corda na caixinha de msica de San Francisco 
e ficou olhando o bonde subir o morro enquanto tocava I left my heart in San Francisco (Eu deixei meu corao em San Francisco).
      Queria saber onde deixei o meu corao... Sinto-me empurrada em muitas direes.
      Tornar-se lder de torcida era um sonho importante; um alvo. Sabia que mais tarde poderia olhar para trs, e dizer: "Consegui. Esforcei-me muito e atingi meu 
alvo!" Alm do mais, como dissera o Ted, ela poderia dar testemunho de Cristo. Mas nunca imaginara que teria de levantar metade do dinheiro! E trabalhar de bab 
durante as frias todas para conseguir!
      Uma hora atrs, resolvera que faria o teste para lder de torcida, mas agora teria de tomar uma deciso ainda mais sria: ser que o desejava tanto a ponto 
de estar disposta a trabalhar para conseguir? Torceu com mais fora e determinao a corda da caixinha dr msica. Sem esforo algum, o bondinho partiu em sua viagem 
gratuita at o cume do morro de vidro.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      As Meninas Do L-L-L- No Desistem Nunca
      2
      Nunca fora fcil para Cris tomar decises. Havia trs dias que ela hesitava entre fazer ou desistir do teste para lder de torcida. Suas pernas doam de tantos 
saltos que dera no ensaio, e Rene e algumas das outras garotas aproveitavam toda oportunidade para lembr-la de que ela estava "abaixo" das outras.
      Todos os dias dizia a si mesma que no valia a pena, que ela deveria desistir e no treinar. No entanto, todos os dias ela ia, o corao ainda dividido, querendo 
uma boa razo para ficar, e disposta a aceitar uma boa razo para desistir.
      Na hora do almoo, procurou o Rick. Ele a incentivara indo com ela ao treino do primeiro dia. Talvez pudesse transmitir o impulso de confiana de que ela precisava.
      Encontrou-o no meio da costumeira turma de colegas do terceiro ano. Muniu-se de coragem e aproximou-se do grupo. Vendo-a, Rick chamou:
      - Ei, le-le-l-!
      Cris lanou-lhe um olhar esperando demonstrar seu constrangimento e o desejo de que ele viesse falar-lhe em particular. O rapaz entendeu o recado e se afastou 
dos outros.
      - No me diga! disse Rick, olhando-a de cima, envolvendo-a com seus olhos cor de chocolate e dirigindo-lhe um sorriso brincalho. Voc "danou" na prova de 
Matemtica.
      - No, murmurou ela. A prova  amanh.  outra coisa.
      - Seus pais, ento. Eles querem mudar-se para a Romnia, porque l o aluguel  mais barato. 
      Ela riu.
      - No, Rick,  uma coisa que estou tentando resolver. Um bando de estudantes passava de ambos os lados, tornando difcil a conversa por causa do barulho.
      - Bem, a resposta  vermelho.
      - O qu?
      - Se estiver tentando descobrir qual a melhor cor pra voc,  o vermelho. Voc fica tima de vermelho.
      Cris olhou-o sem responder. No adiantava. E ela que pensara que ele a entenderia.
      - Esquea, disse ela, encaminhando-se para fora.
      Naquele instante o sinal tocou.
      - Espera a! gritou Rick, e correu atrs dela, segurando-a pelo cotovelo.
      Cris olhou para ele sem saber o que dizer. No estava zangada. S confusa. O seu jeito gozador fazia com que o dilema dela parecesse sem importncia. Tentou 
pensar num bom jeito de perguntar: Rick, voc acha mesmo que devo fazer o teste pra ser lder de torcida? Parecia uma pergunta boba e sem propsito. No conseguia 
pensar num jeito de fazer a indagao de modo que parecesse um problema srio.
      - Encontro voc aqui depois da aula, est bem? disse Rick com firmeza, e soltou seu brao, aguardando uma resposta.
      - No  nada...
      - Esteja aqui. Depois da aula.
      Rick foi se afastando de costas, apontando para o lugar onde ns dois estavam conversando. Virou-se ento e correu para o edifcio de Cincias.
      Cris tambm se virou de repente, e acabou trombando com um rapaz que se dirigia para a lata de coleta carregando saquinhos de lixo. 
      - Ora, cuidado!
      Tarde demais. Uma lata de suco esbarrou no seu brao, deixando uma enorme mancha vermelha na sua camiseta cor-de rosa.
      - Desculpe, disse o rapaz, apressando logo o passo.
      Cris percebeu que teria de tentar limpar-se e que chegaria atrasada a classe. Mas a situao piorou quando ouviu a voz zombeteira da Rene atrs dela:
      -  a sua cor, Cris. Voc fica muito bem de vermelho.
      Cris virou-se e encarou Rene, que lhe deu as costas, como se no tivesse dito nada, e foi embora.
      Lgrimas ardentes escorreram rpidas pelo rosto de Cris. Chega! No d mais! No vou ficar suportando os desaforos da Rene. No vou me candidatar. Nem agora, 
nem nunca. Jamais! No vale a pena.
      Era exatamente isso que iria dizer ao Rick. Suas emoes continuaram agitadas aps a aula. Queixo firme, passo rpido, Cris abriu caminho entre o emaranhado 
de mesas, pronta para dar a notcia ao Rick. L estava ele esperando, calmo, confiante, alheio a toda a agitao que envolvera Cris naquela tarde.
      - Como vai a minha L-l-l-? gritou de onde estava.
      - No sou uma L-l-l-, e queria que voc parasse de me chamar assim.
      - Voc vai ser, falou Rick, e alisou seu cabelo castanho ondulado e mudou os livros para o outro brao. Com as pernas que tem, voc s pode ganhar.
      Cris deu-lhe um olhar de desdm e bateu-lhe de leve no brao. Rick deu risada.
      - O que h de to engraado? perguntou ela na defensiva.
      - Voc. Voc me mata de rir!
      Basta! Cris se voltou na direo oposta  do Rick, com a mesma determinao com que se tinha aproximado.
      - Espera um pouco. Pare! gritou Rick, indo atrs dela. 
      Cris no parou. Mas Rick, sim. Deteve-se e disse com firmeza:
      - Pensei que tnhamos parado com essa brincadeira. Sabe como : voc foge e eu corro atrs.
      Cris parou, mas no se virou, para no ter de encar-lo.
      - Venha c, disse Rick, aproximando-se dela.
      Puxou-a para junto de uma mureta de tijolo onde colocou seus livros. Tomou os de Cris e colocou-os tambm ali, enquanto ela se sentava no muro. Rick sentou 
ao seu lado e, com voz firme, perguntou:
      - Agora faa o favor de me dizer o que est acontecendo?
      -  Nada.  verdade!
      Ela se sentia to imatura! Por que se perturbava tanto com uma coisa dessa? Por que se afastava dele desse jeito?
      - Vamos l, Cris! Voc se lembra de como as coisas ficaram estranhas entre ns aps o Natal? 
      Cris acenou que sim.
      - E no se lembra da longa conversa que tivemos, quando resolvemos que seramos amigos, acontecesse o que acontecesse? "Nada mais de fingimentos", foi o que 
voc disse. E ento, o que est acontecendo? concluiu Rick, cruzando os braos sobre o largo trax.
      Cris baixou os olhos, piscando para afastar as lgrimas.
      - Desculpe-me, Rick.  esse negcio de lder de torcida...
      - O que  que tem?
      - Rene tem razo. No tenho jeito pra lder de torcida. No vou fazer a prova.
      - Vai sim! afirmou Rick. 
      Cris no olhou para ele.
      - Mesmo que eu passe no teste, meus pais disseram que terei de levantar metade do dinheiro. Como vou conseguir isso?
      -Voc dar um jeito.
      - No vale a pena.
      - Vale sim.
      Ficaram ali sentados, imveis e em silncio por alguns instantes, enquanto Cris tentava conter uma lgrima. A voz de Rick ganhou um tom suave e mais persuasivo.
      - Se h uma coisa de que tenho certeza sobre voc, Cris Miller,  que no  pessoa de desistir. Voc  melhor do que qualquer daquelas garotas, e sabe disso. 
No pode deixar a Rene derrot-la. Ela quer irrit-la s pra voc desistir. No deixe, no! Tem de si esforar ao mximo. Tem de tentar. Prometa-me que vai dar 
tudo de si.
      Cris olhou para ele, os olhos j limpos, a boca entreaberta num leve sorriso promissor.
      - Est bem, Rick, vou tentar.
      - Puxa, garota! disse Rick, abanando a cabea e fitando-a. Se voc soubesse como fica quando faz assim!
      - Faz o qu?
      - So seus olhos. Voc tem uns olhos de matar, Cris. Um jeito todo especial de olhar para um cara. Voc nem imagina o que faz com a gente.
      Cris sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Com um pouco mais de ousadia que de costume, ela disse baixinho:
      - Bem, Rick, voc tem um jeito de usar as palavras certas e fazer uma garota se sentir como massinha.
      - Como massinha?
      - Sim, de modelar. Macia e flexvel.
      - Pois bem, Olhos-de-Matar, voc faz o mesmo com um cara quando o brinda com esse olhar todo inocente e feliz.
      De brincadeira, Cris piscou vrias vezes seguidas e, imitando a voz de uma personagem de filme, perguntou:
      - Quer dizer assim, Rick?
      - No, falou Rick com expresso sria.  por isso que seu olhar  lindo: voc nem sabe o que .  natural em voc;  sua inocncia. No tem muitas meninas 
nesta escola com esse seu jeito.
      Olharam um para o outro e Cris sentiu-se aquecida, energizada, e bem mais animada como h muito tempo no se sentia.
      -  melhor voc ir, disse o rapaz, seno se atrasar para o treino.
      - Obrigada, Rick, respondeu ela, impulsivamente, dando-lhe um abrao de amigo.
      Rick retribuiu o gesto.
      Cris avistou Rene a alguns passos, olhando-os chateada, e por isso continuou segurando no Rick, mesmo depois que ele se soltou dela. Rick ento colocou os 
braos em volta de Cris e, s para fazer graa, fingiu que iria derrub-la do muro. Mas em seguida segurou-a e ajudou-a a manter o equilbrio. Os dois riram e, olhando 
pelo canto do olho, Cris notou que Rene tinha desaparecido.
      No ensaio, Cris entrou com tudo, procurando compensar, com entusiasmo, a sua falta de experincia. Toda vez que olhava para o lado de Rene, esta lanava olhares 
ardentes de clera na sua direo. Se a treinadora no estivesse presente, Rene seria capaz de atac-la e arrancar-lhe os olhos, pensou Cris.
      No tinha importncia. Iria esforar-se ao mximo. No era de desistir. Tinha tomado a deciso, e agora no podia mais voltar atrs.
      
      
      
      
      
      
      
      Romnticas Esperanosas
       3
      Cris mal conseguiu ler o dever de casa de Histria. A cabea transbordava de idias sobre a funo cobiada. Ia imaginando toda a sequncia de passos e malabarismos 
que pretendia executar na prova de sexta-feira. Imaginava-se vestindo o saiote e a blusa azul e dourada que a escola prometera a todas as meninas que se submetessem 
 prova. A treinadora dissera que todas se vestiriam igualmente para que a aparncia no influenciasse os juizes.
      Colocou o livro de lado e liberou um espao no meio do quarto. Mirando-se no espelho da porta do closet, ensaiou todos os passos, certificando-se de que o 
sorriso brotado em seus lbios era o maior e o mais radiante que tinha a oferecer.
      J dissera a si mesma inmeras vezes que era s fazer o melhor que pudesse, que ela conseguiria. O que lhe faltava em coordenao podia ser compensado pelo 
entusiasmo. Afinal de contas, ela tinha "olhos de matar", no tinha?
      Com uma das mos na cintura e a outra no ar, punho cerrado, imobilizou-se diante do espelho, avaliando atentamente os olhos, o sorriso, e a postura. Gostou 
do que viu. Com mais um salto vigoroso, imaginou estar pulando em frente dos juizes.
      - Cris? era sua me batendo na porta do quarto e abrindo-a devagar. Voc ainda est saltando? So mais de nove horas e seu pai j caiu no sono.
      - Desculpe! disse Cris, baixinho.
      - Terminou o dever?
      - Mais ou menos.
      - Cris, voc j teve bastante tempo para termin-lo. No gosto do jeito como esse treinamento tem afastado voc dos estudos. Se suas notas baixarem, no vamos 
permitir que seja lder de torcida. Entendeu?
      - Sim.
      - Est bem. Apronte-se para dormir. Acordo voc amanh bem cedinho, quando seu pai estiver saindo para o laticnio. A voc termina o dever.
      Ser acordada s 5:30 da manh, para estudar Histria, seria um bom castigo para criminosos, pensou Cris, quando a me a chamou na manh seguinte. Mal conseguiu 
manter os olhos abertos  mesa da cozinha. O livro permaneceu ao lado da sua tigela de cereal como se fosse uma mmia seca.
      - Histria  to maante! reclamou com a me, que se serviu de caf e veio sentar-se ao lado dela.
      - No era para as pessoas que a viveram, disse a me.
      - E por que temos de estudar isso hoje? Que importncia tem7
      O rosto da me parecia completamente desperto, e Cris pensou que devia ser pelos muitos anos que vivera na fazenda, onde sempre se levantava com o dia ainda 
escuro.
      - O problema da Histria  que devemos aprender com as decises certas e erradas que os povos do passado tomaram. Ento ns, como nao, poderemos arriscar 
decises mais acertadas, baseando-nos no que sabemos.
      - H?
      - Acho que voc ainda no acordou, Cristina. Acordou? 
      Com um bocejo capaz de engolir o mundo, Cris murmurou:
      - Quero voltar pra cama.
      - Por que no toma banho e se apronta? Voc ficar mais desperta. J terminou os exerccios de lgebra?
      - Quase tudo.
      - Falo srio, Cris, quando digo que voc no pode perder nota por causa desse negcio de torcida.
      - Eu sei, eu sei! Vou tomar banho. Minha blusa vermelha est limpa?
      - Sua blusa vermelha? Hoje vai fazer calor como ontem, respondeu a me. Vai ser quente demais para usar blusa de frio.
      Cris levantou e se afastou da mesa.
      - Eu tenho alguma outra roupa vermelha?
      - Por qu?
      - Ah! esquea. Vou procurar alguma coisa pra vestir.
      Levou vinte minutos, mas decidiu, finalmente, a colocar um vestido que havia muito no usava: um branco, de algodo, com gola de renda larga - roupa de vero. 
Depois de ter ficado tanto tempo no fundo do armrio, ele precisava ser passado. Se sua me estivesse certa e aquele fosse mais um dia quente de maio, estaria refrescada 
e bem vestida, como as garotas ricas da escola, pensou Cris. Raramente trajavam jeans e possuam grande variedade de acessrios para o cabelo, combinando tudo que 
tinham no guarda-roupa.
      Cris puxou o cabelo para trs, prendendo-o com uma fivela coberta de prolas. Estava pronta para o que desse e viesse naquele dia.
      - Cris! chamou a me da porta do banheiro, onde ela aplicava rmel nos clios interiores sem deixar manchas. Voc tem de sair dentro de cinco minutos.
      - Cinco minutos?! exclamou ela enfiando o rmel no estojo. Ainda no terminei meu dever!
      - O que voc andou fazendo nessas ltimas duas horas?
      - Tomei banho, arrumei o cabelo e tive de passar o vestido... Abriu a porta do banheiro, exibindo o visual.
      - Nossa! exclamou a me. Voc parece que vai  igreja ou a uma festa!
      Naquele instante o telefone tocou e David atendeu. Cris ouviu-o dizer:
      - Claro, cara! Quando voc vai me levar pra andar de skate de novo? Ha? . Ela ainda t aqui.
      Cris correu para o telefone. S podia ser o Ted. Tomou o fone das mos do irmo e deixou que a voz sasse leve e bonita como ela se sentia.
      - Bom dia!
      - Ol! Como vo as coisas por a?
      Era Ted, e sua voz tranquila fazia com que Cris se sentisse como das outras vezes, cheia de expectativas pela hora em que o veria novamente.
      - Voc tem de trabalhar neste fim de semana? perguntou ela.
      - Amanh. Pensei em dar uma chegada a hoje  noite, para ver voc, se no houver problema com sua famlia.
      - Claro que no! Voc sabe que  sempre bem-vindo. A que horas pretende chegar? Venha jantar conosco!
      - s cinco e meia est bem?
      - Claro.
      - Legal. Vejo voc mais tarde.
      - Tchau, Ted. Tenha um dia maravilhoso! Mas ele j havia desligado. Sempre desligava antes. Ainda segurando o telefone, Cris deixou a imaginao preencher 
as lacunas, j que a conversa do Ted sempre era curta e ele ia direto ao assunto.
      Seus pais gostavam muito do Ted. Seu irmo o adorava. Certa vez ele viera num sbado, e passara vrias horas andando de skate com o David; depois ajudara seu 
pai a pintar um cmodo. A ps o jantar, ele fora lavar a loua, e Cris pegara um pano de prato para enxugar, percebendo que essa talvez fosse a nica  hora  que 
ela poderia passar a ss com ele.
      - Me, disse Cris. Hoje o Ted vem jantar conosco, est bem?
      - Ele vem? A que horas?
      - Cinco e meia. O.K.?
      - Legal! gritou David. Ele vai trazer o skate?
      - No perguntei, mas quando ele chegar, no implore pra ele ficar o tempo todo com voc, t bem?
      O menino soltou uma risada marota ao passar pela irm, e pegou o lanche em cima da mesa.
      - Me, reclamou Cris, pode pedir ao David para no ficar chateando o Ted como ele sempre faz?
      - Eu no chateio!
      - Chateia sim!
      - Chega! interveio a me. Vocs dois vo se atrasar para a escola.
      - Me? perguntou Cris, sem ligar para o fato de que estava-se atrasando. Eu estava pensando, falou e parou um instante. Eu estava pensando se... bem, voc 
acha que o papai me deixaria ir  festa de formatura com o Ted, se ele me convidar? J que este  o ltimo ano dele na escola...
      - Cris! Me perguntar uma coisa dessas quando deveria estar saindo por aquela porta?
      - Mas voc acha que o papai faria uma exceo, se for com o Ted?
      - Nem vou tentar responder por ele. Agora vo, os dois!
      Durante a primeira aula, que era de Histria, Cris ficou s pensando na possibilidade de ir  festa de formatura com o Ted. Comprar um vestido novo. Arrumar 
o cabelo... Sentia-se uma verdadeira Cinderela.
      Quanto mais pensava nisso, mais lhe parecia um sonho realizvel. Um sonho que tinha de acontecer. Afinal de contas, o Ted iria formar-se e ela era a pessoa 
mais provvel de ser sua namorada.
      Estendeu o brao direito sobre o livro de Histria aberto e ficou mexendo o brao devagarinho. Sua pulseira de chapinha de ouro reluzia cheia de promessas. 
Cris passou os dedos de leve sobre as palavras gravadas: "Para sempre". Ela j tinha feito isso muitas vezes, desde que o Ted lhe dera a pulseira na passagem de 
ano, e conhecia de cor o toque.
      Puxa! Como as coisas vo bem pra voc, disse Cris para si mesma. Ela tinha o Rick como bom colega na escola e na igreja. E tinha o Ted. Sempre o teria. Sabia 
bem disso.
      Temos de ir  festa de formatura!  uma dessas lembranas que se guardam "para sempre" e que um casal como ns precisa ter.
      O sinal tocou e a lio enfadonha acabou. Os alunos levaram para casa a incumbncia de ler dois captulos de Histria, no final de semana. Cris agarrou os 
livros e correu para avistar-se com Katie junto ao armrio dela; lugar onde geralmente se encontravam.
      - Vestido bonito! disse Katie, os olhos verdes examinando cada detalhe da roupa. Qual a festa?
      - Katie, pareo uma garota prestes a ser convidada para a festa de formatura?
      - Entendi. Voc acha que, se parecer talhada para o papel, sua fada madrinha vai distingui-la no vasto oceano das romnticas esperanosas, todas ansiando por 
um convite para a festa de formatura, disse Katie, torcendo dramaticamente o punho no ar e sacudindo seus cabelos cor de cobre. Ela escolher voc dentre todas e 
far com que seu desejo se torne realidade, simplesmente porque voc parece merecer isso.
      Cris riu baixinho e olhou em volta, esperando que ningum tivesse percebido a exibio da amiga.
      - A gente pode sonhar, no pode?
      - E o que dizer daquele pequeno detalhe: seus pais?
      -  nisso que tenho esperana. Perguntei  minha me hoje de manh, e o que ela respondeu no foi exatamente um "no". Quer dizer, primeiro ele teria de me 
convidar, claro, mas eu falei que, como este  o ltimo ano dele no colegial...
      A estridente campainha interrompeu Cris. Ela encerrou, ento, dizendo:
      - No faz mal a gente estabelecer metas elevadas, faz?
      - No; e isso seria timo! Voc acha que seus pais deixariam mesmo? Se eles deixarem, ento eu vou convidar o Leo pra ir comigo! comentou Katie, rindo com 
o entusiasmo de sempre.
      Cris arregalou os olhos para a amiga.
      - Ser que ele iria com voc? Mas o que estou dizendo! Claro que sim! Katie, convide-o!
      - Primeiro vamos ver se voc vai poder ir.
      O corredor comeou a esvaziar-se.
      - Nossa! gritou Katie, vamos nos atrasar! Ligo pra voc depois da aula. Espero que faa boa prova de Matemtica.
      Ah, no! Esqueci-me totalmente dessa prova!
      Durante a aula seguinte, Cris ficou tentando estudar para a prova. Mas no adiantava. A cabea estava cheia de sonhos sobre a festa de formatura. A prova foi 
dificlima, e ela sabia que tinha errado pelo menos metade das questes. Tentou ignorar o aperto no estmago que sentiu ao lembrar de sua me dizendo: "Voc no 
pode perder nota por causa desse negcio de torcida!"
      
      
      
      
      
      
      Sob A Trelia Florida 
4
      - Na prxima sexta, dizia a Prof.a Janet, a treinadora das lderes de torcida, vocs devero estar aqui imediatamente aps as aulas, para se vestirem para 
o teste. Estaro no ginsio a partir das 15:30. Alguma pergunta?
      - Sim, disse Rene, chegando perto da Cris e murmurando baixinho: o que temos de fazer pra evitar que a Cris venha  prova?
      - Que foi que voc disse? perguntou a treinadora.
      - Ah! Eu estava s comentando como vo os ensaios, disse Rene.
      Cris cerrou os dentes e engoliu seco. Essa chateao diria estava corroendo-a por dentro.
      O que foi que eu fiz com voc, Rene? Por que  to malvada comigo? Isso no  justo e no vou deixar que me trate mais assim!
      Cris resolveu que derrotaria Rene nas provas. Mostraria a ela e s outras que tinha capacidade e garra para venc-las!
      Fizeram os movimentos com preciso mecnica e Cris deu tudo de si. Na sexta-feira seguinte ela seria uma lder de torcida de primeira categoria. Provaria  
Rene que merecia participar da equipe.
      Comeou a adotar a mesma atitude positiva com relao  festa de formatura. Encontraria um jeito de convencer o pai a deix-la ir. Se ela se esforasse bastante, 
estava certa de que conseguiria. Sabia que iria conseguir.
      Essa expectativa e determinao fizeram com que Cris se sentisse ainda mais empolgada pela visita do Ted. Estava vibrando de expectativa. Direcionou parte 
dessa energia nervosa aos preparativos, dando toda ateno ao banho, ao cabelo e  maquiagem.
      A me estava certa sobre o tempo. Era um dia quente de primavera. Cris examinou com cuidado seu guarda-roupa. Faltavam apenas cinco minutos para o Ted chegar. 
No que ele fosse chegar na hora. Era to tranquilo em tudo. Geralmente s andava de short ou bermuda. Mesmo no inverno. Provavelmente se vestiria assim hoje.
      Cris resolveu colocar o short branco, com sua blusa vermelha de malha, meias vermelhas e tnis brancos. No final estava com aparncia de uma lder de torcida, 
o que lhe agradou. Dando uma ltima olhada no espelho, pegou a pulseira de chapinha de ouro e prendeu-a no brao.
      - Voc est cheirosa! disse sua me, enquanto Cris arrumava cinco lugares  mesa. Que perfume  esse?
      - Jungle Gardnia. Lembra que ganhei de Natal? Est quase acabando, pensou ela. Estou guardando as ltimas gotas pra quando oTed vier. Uma vez ele me disse 
que meu perfume era extico e delicioso.
      - Ser que o Ted gosta de lasanha? perguntou a me. No fiz quando ele esteve aqui.
      - Tenho certeza de que ele vai gostar. Voc sabe que para ele o pior de morar com o pai  que s come congelados para microondas. Alm do mais, o Ted gosta 
de tudo que voc faz.
      Cris achou graa no fato de que at sua me quisesse fazer tudo para agradar o Ted. Ele tinha um jeito de fazer com que todoo inundo quisesse agrad-lo sempre 
com algo de bom.
      Como filho nico de um casal divorciado, cujo pai viajava o tempo todo, Ted dava a impresso de ser mais responsvel e independente do que a maioria dos rapazes 
de dezessete anos. Sem nenhuma atitude proposital, tambm parecia fazer com que os adultos quisessem ajud-lo, s porque era um "moo to simptico", como diria 
Marta, tia de Cris.
      - Ah! algum ligou enquanto voc estava no banho. David anotou o recado, disse a me enquanto colocava no forno um tabuleiro de po de alho.
      - Quem era?
      - No sei. Pergunte ao David. Ele est l na frente.
      Cris foi at  varanda e chamou o irmo, que tinha desaparecido. Sentiu o perfume de jasmim da trelia ao lado da varanda e lembrou de como achara horrorosa 
a casa quando seus pais tinham vindo ali para alug-la, em setembro do ano passado. A nica coisa que havia na varanda era um vaso de barro quebrado. Mas a me fizera 
maravilhas com as plantas, e o pai construra uma trelia em arco na escada da frente.
      Parecendo entortar-se, o jasmim crescia alguns centmetros mais a cada dia. Cris imaginou como seria romntico, numa noite estrelada, se o Ted subisse com 
ela os degraus at a porta e a beijasse sob aquele toldo perfumado.
      - David! chamou ela de novo. E se foi o Ted que ligou pra dizer que estava atrasado?
      - O qu? replicou ele aparecendo ao lado da casa com uma gatinha da rua nos braos.
      - Quem foi que ligou? Mame disse que voc recebeu o recado.
      - Foi aquele cara.
      - Que cara? perguntou Cris impaciente.
      - Eu queria que o pai me deixasse ficar com ela, falou o garoto passando uma folha de grama acima da cara do bichinho, e a gatinha batia na folha com a patinha.
      - David, quem foi que ligou? O Ted?
      - No, aquele outro cara.
      - Rick?
      - Acho que  esse nome.
      - David! Que foi que ele disse?
      - Se papai deixasse eu ficar com ela, eu daria o nome de "Botinha". T vendo, tem uma botinha branca nos ps.
      Num movimento rpido, Cris encarou seu irmo, agarrou-o pelo ombro e, controlando a voz, perguntou com severidade:
      - Que foi que o Rick disse, David?
      - Sei no. Falei pra ele que voc no podia atender porque estava de castigo.
      - Eu, de castigo! exclamou ela apertando o ombro do irmo. Por que voc disse isso?!
      - Ai! fez David recuando-se bruscamente, livrando-se das garras da irm e apertando a gatinha contra o peito, numa atitude defensiva.
      - Que  que eu devia dizer? Que estava tomando banho? Voc ficaria com vergonha!
      Cris fitou o irmo no querendo crer no que ouvia. Tentando se compor, declarou:
      - Por que voc no tenta dizer a verdade da prxima vez? A sinceridade  a melhor poltica. Eles no ensinam mais essas coisas na escola dominical?
      David franziu o nariz com seu jeito caracterstico, e os culos escorregaram no nariz. Os comentrios de sua irm pareciam alm da sua compreenso.
      Satisfeita com seu autodomnio, Cris disse calmamente:
      - Est bem. Da prxima vez, v se fala a verdade, t?
      No momento no importava se David entendia ou no. A gata resolveu livrar-se dele e arranhou seu brao na tentativa de escapar.
      - Volta, Botinha! gritou David, correndo atrs do bichinho.
      Cris permaneceu na varanda mais alguns minutos, deliciando-se com a brisa do entardecer e procurando ver se a "Kombi Nada" do Ted estava chegando. Colheu depois 
um boto de jasmim e ps-se a revolv-lo entre os dedos, aspirando-lhe o forte e doce aroma.
      Ser que devo dar um retorno ao Rick, ligando pra ele?Provavelmente, queria saber se fui ao treino depois da conversa que ti vemos. No quero estar ao telefone 
com Rick quando o Ted chegar. Esta noite pertence ao Ted. Por que est demorando?
      Ted, sempre imprevisvel, chegou com mais de meia hora de atraso. A famlia, desistindo de esper-lo, sentou-se para comer o po de alho j torrado demais, 
acompanhado de uma lasanha passada do ponto. Todos reconheceram o barulho da kombi parando em frente da casa.
      Eu no disse que se comessemos a comer ele chegaria? disse David orgulhoso de si, saltando da cadeira e correndo para a porta, onde, ansioso, recebeu o Ted. 
Voc trouxe o skcate?
      - Desta vez no, cara.
      Aconteceu de novo. Acontecia sempre. Toda vez que Cris ouvia a voz serena e forte do Ted, alguma coisa mexia dentro dela. Como naquele dia quente de vero 
em que ela mergulhara numa piscina ensolarada, sentindo um choque to frio que a fez perder o flego.
      - Tem alguma coisa com um cheiro delicioso aqui! Italiano?
      Ted entrou na sala com seu metro e noventa e cinco de altura, cabelo loiro-arenoso desmanchado pelo vento, os olhos azul-prateados vasculhando a mesa de jantar. 
Vestia short, como Cris pensara, e uma camiseta branca com a marca de uma bola de vlei amarelo-neon estampada no bolso. Trazia uma caixa amarela com frutas.
      - Morangos. Sabe aquela banca de frutas da Rodovia 76? J estavam fechando quando passei por l, mas assim mesmo consegui convenc-los a me venderem a ltima 
caixa.
      Cris sempre se surpreendia com Ted. Ele conseguia convencer qualquer um de qualquer coisa.
      - Experimente, disse ele, pegando um morango do tamanho de uma ameixa. A cidade de Vista  o nico lugar que conheo onde os morangos chegam a esse tamanho. 
E so doces! Experimente um, cara!
      Sem pestanejar, David enfiou um morango inteiro na boca, murmurando de satisfao.
      - Quanta ateno a sua, Ted, disse a me de Cris, levantando-se e pegando a caixa. Por favor, sente-se. Lamento que tivssemos de comear antes de voc chegar.
      Ted sentou-se ao lado de Cris. Ela perguntou-lhe por que havia passado por Vista.
      - Tentei evitar o trnsito. Escolhi a hora errada do dia pra vir na direo sul pela via expressa 5. E o senhor, como vai? falou Ted estendendo a mo para 
cumprimentar o pai de Cris.
      - Muito bem.  melhor atacar logo esse jantar!
      Foi o que ele fez. Cris nunca viu algum comer tanto de uma s vez. E Ted repetiu mais de uma vez seus elogios  me de Cris.
      - A senhora  uma tima cozinheira. Essa lasanha est incrvel!
      Obviamente ela apreciou os elogios, e Cris teve mais certeza ainda de que seus pais gostavam do Ted. Sentiu-se confiante de que tudo iria dar certo e que ela 
e o Ted iriam  festa de formatura. No havia como seu pai proibir.
      A me lavou os morangos e serviu-os com chantilly do laticnio onde o pai de Cris trabalhava. Como dissera o Ted, as frutas eram doces e fresquinhas. Evaporaram 
em poucos minutos.
      Cris comeou a tirar a mesa, e o rapaz levantou-se para auxili-la.
      - Eu estava pensando, disse Ted de repente, se deixariam que eu sasse com a Cris um pouquinho.
      Cris deteve-se no meio do passo, com o flego suspenso. Ser que ele vai me convidar para a festa de formatura desse jeito? Na frente de todo mundo, com as 
mos cheias de loua suja?
      A me olhou depressa para o marido e depois para o Ted. 
      - E est pensando em ir aonde? perguntou.
      - Queria ir a uma sorveteria. Est uma noite tima pra uma caminhada. Tem alguma mais ou menos perto?
      Cris suspirou aliviada e colocou os pratos na pia. Que romntico! Ele vai me levar pra uma caminhada e da me convida para a  formatura. Debaixo do jasmineiro! 
Vou fazer com que me convide debaixo do jasmineiro... Sua imaginao saltava, as esperanas iam s aumentando.
      - Tambm vou! anunciou David.
      - No vai, no! retrucou Cris. Quer dizer, provavelmente, voc deveria ficar em casa, no , me?
      Todos a olharam. A garota teve a impresso de que todos sabiam da sua fantasia mais ntima, como se estivesse escrita em seu rosto, em letras fluorescentes. 
A me fitou o marido. Este fez uma pausa.
      - Por favor, pai! insistia David.
      - Por mim, tudo bem, disse Ted, de p entre a cozinha e a mesa, como uma rede de vlei que interceptava os olhares de Cris para a me, de Cris para o pai, 
de David para o pai.
      - Acho, disse o pai devagar, que voc precisa ficar por aqui, David. Cris, voc e Ted podem ir  sorveteria Swenson's, no Vineyard, mas estejam em casa at 
as oito e meia.
      - Obrigada, pai, falou a jovem tentando no deixar transparecer sua euforia.
      Geralmente, quando o Ted ia  casa dela, os dois sempre arrumavam alguma coisa para fazer l mesmo. Ted mais parecia uma pessoa da famlia. E isso era bom. 
Muito bom. Se o pai no fazia objeo ao passeio at a sorveteria, o mais provvel  que tambm no o fizesse  festa de formatura.
      Ted aproximou-se da pia e comeou a enxaguar a loua.
      - Deixe que eu fao, interveio a me de Cris. Vocs dois podem ir S tm uma hora.
      - Foi um jantar excelente, disse Ted, sorrindo largamente para ela. Muito obrigado.
      - s ordens, Ted. Sabe que voc  sempre bem-vindo aqui. E obrigada pelos morangos.
      - Ei cara, disse Ted para David, que se jogara no sof, braos cruzados no peito, culos cados, fazendo beio como um especialista nisso. Da prxima vez eu 
e voc vamos fazer alguma coisa, t bem?
      - Quando? indagou o garoto, o "bico" ainda maior.
      - Da prxima vez que eu vier.
      - Pode vir no prximo fim de semana? indagou David levantando os olhos esperanoso. No sbado. O dia inteiro, t bem?
      - No; no sbado que vem no posso vir no.
      - Por que no?
      -  dia da minha formatura.
      David voltou a ficar amuado, mas o corao de Cris deu um salto.
      T vendo!? Ele disse! A formatura  no prximo sbado. Ele vai me convidar hoje. Tenho certeza!
      Mas da seus pensamentos tomaram outra direo. Prximo sbado?! Mas ento falta pouco tempo! As provas para lder de torcida so na  sexta! Quando  que vou 
ter tempo de comprar um vestido e tudo mais? Por que ele no me convidou antes?
      - Pronta? indagou Ted, interrompendo o vaivm dos seus pensamentos. 
      - Sim, claro!
      Pela primeira vez, naquela noite, o olhar do Ted fixou-se diretamente no de Cris. E assim permaneceu por mais tempo que o necessrio. Cris perguntou a si mesma: 
Ser que estou fazendo aquilo? Olhando pra ele com "olhos de matar", como diz o Rick? Ser que ele sente por mim o que sinto por ele?
      - Estaremos de volta s oito e meia, disse Ted por sobre o ombro, ao segurar a porta para que Cris passasse. A gente se v noutra hora, cara!
      A porta de tela bateu atrs deles e escutaram o David choramingando:
      - Assim no vale! No  justo!
      Ted e Cris riram e desceram a escada da frente, passando sob o arco do jasmineiro.
      
      
      














      Uma Noite Encantada
      5
      Algumas noites de primavera so encantadas mesmo. Principalmente quando os passarinhos cantam um pouco mais, e as cores do cu se empalidecem, assumindo tons 
etreos. O vento arremessa as flores das rvores como se fossem confete, e a a gente se convence de que  uma noite para se festejar. Aquela noite era uma dessas.
      No era um encantamento no sentido mgico do termo, mas na percepo de Cris de que tudo ao seu redor exalava evidncias sobre um Deus vivo. Um Deus que criou 
as flores amarelas, o cheiro da relva e os arco-ris transparentes nos aspersores do jardim. Um Deus que conhece os sonhos escondidos no corao de uma jovem, e 
se interessa por eles.
      Alm do encanto, havia um silncio confortvel entre Cris e Ted, enquanto transpunham aquele primeiro quarteiro. Com o Ted, geralmente era assim. Ele planejava 
o que dizer, e o fazia com demora.
      Cris queria saber no que ele pensava naquele momento. Ser que deveria dar-lhe a mo? Deixou que o brao pendesse rente ao dele, esperando que ele percebesse 
e pegasse em sua mo.
      - Eu lhe contei que estou fazendo discipulado? Perguntou Ted iniciando o dilogo. Com um sujeito l da igreja, acrescentou.
      - Que significa "discipulado"? perguntou Cris, aproximando-se dele um pouco mais.
      - Bem, ns nos reunimos uma vez por semana para estudar a Bblia e ajudar um ao outro a memorizar versculos, explicou. Quer saber quais so os meus?
      Ele parecia bastante animado, como uma criana que tinha uma poesia para recitar em aula.
      - Claro, disse Cris.
      -  Primeira Corntios 13.0 "captulo do amor", como dizem. 
      Ento, sem que Cris o esperasse, ele tomou-lhe a mo. Ela fichou os olhos, querendo gravar na memria o momento, para que depois pudesse descrev-lo no dirio. 
No podia imaginar nada mais romntico no mundo do que estar de mos dadas com o Ted, numa encantada noite de primavera, ouvindo-o recitar o que Deus diz sobre o 
amor. E ele recitou:
      "Ainda que eu fale as lnguas dos homens e dos anjos, se no tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o cmbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom 
de profetizar e conhea todos os mistrio e toda a cincia; ainda que eu tenha tamanha f, a ponto de transportar montes, se no tiver amor, nada serei. E ainda 
que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue meu prprio corpo para ser queimado, se no tiver amor, nada disso me aproveitar."
      A Ted parou e Cris pensou: isso no est parecendo muito romntico. Em seguida, ele continuou:
      "O amor  paciente,  benigno; o amor no arde em cimes, no seu fana, no se ensoberbece, no se conduz inconvenientemente, no procura os seus interesses, 
no se exaspera, no se ressente do mal; no se alegra com a injustia, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo cr, tudo espera, tudo suporta." Parou novamente, 
e disse:
      - S sei at a, mas tem mais.
      Agora era a vez de Cris pensar bem antes de abrir a boca. Os versculos no eram nada como ela imaginava que seriam. A nica parte que ela realmente entendeu 
era o que estava no final: "tudo espera" e "tudo suporta". Essas eram qualidades que ela vinha conhecendo bem ultimamente, em relao  liderana de torcida.
      - Demorou muito pra decorar tudo? perguntou afinal.
      - Estamos trabalhando nisso h vrias semanas. Tenho um pouco de dificuldade pra decorar.
      - Eu tambm; no sou boa de memria.
      - Eu escrevo os versos em cartes e os carrego no bolso por toda parte. Ajuda um pouco, explicou Ted. Li os cartes enquanto vinha pra c. Provavelmente  
por isso que ainda est bem fresquinho na minha cabea.
      - Voc decorou muito bem, elogiou Cris. Ted apertou-lhe a mo.
      - Ei! Voc sabe aonde  que vamos?
      - Viramos na prxima rua, e andamos mais umas trs quadras.
      - Que noite linda! exclamou Ted, enchendo os pulmes de ar. Tem cheiro quase... tropical, extico.
      Pode ser o meu perfume, comentou ela e aproximou do rosto dele a mo que ele segurava para que a cheirasse.
      - ! Que  isso?
      Cris disse o nome do perfume e ele comentou que lembrava o Hava, perguntando se ela j fora l.
      Ela teve vontade de replicar: Claro! E quando  que eu fui ao Hava?, mas s respondeu:
      - No, mas adoraria ir um dia.
      - Eu e meu pai moramos l uns dois anos.
      - Verdade?! No sabia disso!
      - ; estudei na escola Rei Kamehabeba III, em Lahaina.
      - Onde? indagou Cris, rindo dos nomes compridos e complicados de pronunciar.
      -  na ilha de Maui. Eu adorava ir a p, atrado pela fragrncia das rvores plumeria. Lembram o seu perfume. Pretendo voltar l nas prximas frias.
      Cris deteve-se de repente, os braos subitamente enrijecidos no espao entre eles.
      - Voc vai? Nessas frias? Ted riu, vendo-lhe a reao.
      - Sim. Ou ento nas prximas. Ainda no estou absolutamente certo.
      Continuaram a caminhada e Cris disparou uma srie de perguntas.
      - O que voc vai fazer l? E a faculdade? Onde voc vai estudar? No vai trabalhar nestas frias? E s em pensamento acrescentou: E eu, onde fico nessa histria?
      - Puxa! Voc at parece a minha me com essas perguntas todas! gracejou Ted.
      - Desculpe.  s que fiquei surpresa, disse Cris, sorrindo. Achei que voc passaria as frias na praia, sabe, como no ano passado.
      Ted virou-se
      - Pode ser. Ainda no sei.
      Cris apertou um pouco mais a mo dele, e no resto do caminho, at a sorveteria, resguardou-se de revelar seus sentimentos. A verdade mais profunda vinha-lhe 
 mente com frequencia: Ele no  seu, pra que se prenda a ele.
      Mas ela fez questo de no ligar para isso. Uma noite encantada  para se curtir, e no analisar a vida.
      - J sabe o que vai querer? perguntou Ted alguns minutos mais tarde, em frente ao balco de sorvetes.
      Sua resposta imediata seria: Sei; voc. Quero que seja meu namorado e me leve  festa de formatura... E passe as frias comigo na praia.  isso que quero! 
Mas sua voz disse apenas:
      - Hum! quero um sorvete de laranja com pedaos de chocolate suo numa taa, no na casquinha.
      A moa que os atendia estudava na mesma escola de Cris, mas esta no sabia seu nome. Ted sorriu e a cumprimentou, como sempre fazia com as pessoas:
      - Ol, como vo as coisas?
      A moa respondeu dirigindo-lhe um olhar de admirao. Cris mal podia acreditar! E, como se Cris no estivesse ao lado dele, ela perguntou o nome do Ted e o 
por que nunca o vira ali. Sugeriu-lhe que voltasse na hora de fechar - ela lhe daria sorvete de graa. Ted ficou bem natural, parecendo nem ligar para a ousadia 
da garota.
      Cris se encheu de cimes. Como ela se atreve afazer uma coisa dessa? No est vendo que o Ted est comigo? Quem ela pensa que ?
      - Obrigado, disse Ted, quando ela lhe deu o troco.
      A moca agarrou a mo dele, dizendo:
      - Lembre-se, venha na hora de fechar e no precisa pagar nada.
      Cris queria ir embora. Sair dali e voltar a caminhar, de mos com ele. Queria o rapaz s para ela, mesmo que fosse apenas por uma hora.
      Mas o Ted queria ficar. Conduziu Cris para uma mesa encostada  parede dos fundos. Tomaram o sorvete em silncio por alguns minutos. Cris tomava pequenas colheradas, 
deixando que se dissolvessem na boca. Ted tomava um milkshake. Quando ela se acalmou o suficiente para concentrar-se nele, lembrou-se da primeira vez que saram 
juntos, quando foram a uma sorveteria na praia de Newport.
      - Lembra-se da primeira vez que tomamos sorvete juntos? indagou ela sussurrando.
      - Quando foi? perguntou Ted.
      - Lembra? Nas frias, depois da festa do Sam, explicou Cris, sentindo suas emoes se acalmando.
      O rosto de Ted se anuviou. Ela percebeu que o rapaz estava se recordando da noite em que o Sam morrera por ter tomado drogas e sado para surfar num lugar 
perigoso.
      - , disse ele devagar.
      Cris mudou rapidamente de assunto.
      - Como  que est indo esse final do ltimo ano no colgio? Est animado com a formatura e tudo o mais?
      "Tudo o mais" significava festa, mas Cris no queria dizer s claras no que estava pensando.
      - Faltam s alguns dias. Minha me vem para a formatura, e isso vai ser legal.
      - Legal mesmo! disse Cris, com animao.
      Com o canto do olho, viu a porta se abrir e Katie entrar. A amiga tambm avistou-a e correu para o reservado onde se encontrava o casal, sentando-se imediatamente 
ao lado dela, sem notar o Ted.
      - Ele disse que sim, Cris! d pra acreditar? Leo disse que vai comigo! exclamou Katie exuberante. Voc precisava ter visto o entusiasmo de minha me! Foi como 
se eu tivesse conquistado uma medalha de ouro ou coisa parecida!
      Cris olhou para o Ted, depois para a Katie, e disse rapidamente:
      - Mas isso  timo! Katie, quero apresentar-lhe o Ted; Ted, esta  a Katie.
      - Ah! fez Katie, notando o Ted pela primeira vez, e disse "ol" novamente.
      Ted respondeu de queixo para cima, seu gesto tpico, e perguntou como iam as coisas.
      - A Katie estuda na minha escola, explicou Cris. E  da minha igreja tambm.
      - Voc  o Ted?! perguntou Katie, de olhos arregalados. E est aqui hoje!
      - Katie! disse Cris rindo, sem jeito pela falta de tato da amiga. No lhe falei que o Ted vinha jantar em minha casa hoje?
      - No, no falou, retrucou Katie rapidamente, e virando-se para o Ted, disse: Prazer em conhec-lo. Sinto que j o conheo um pouco porque a Cris fala muito 
sobre voc e o acho legal, quer dizer, de acordo com o que a Cris j me contou.
      Parou para tomar flego, virou-se para Cris e disse entre os dentes:
      - Pensei que voc estivesse de castigo!
      Com expresso de surpresa, Cris perguntou: "Por qu?" 
      Katie se aproximou mais um pouco da amiga e sussurrou:
      - Foi o que o Rick disse. Todo mundo foi ao cinema, e ele disse.
      - Com licena, interrompeu Ted, levantando. Vou buscar um copo d'gua. Vocs querem tambm?
      - No, disse Katie animada.
      - Obrigada, no, respondeu Cris calmamente, mas por dentro tudo parecia explodir.
      As duas deram um longo sorriso esperando que o Ted se afastasse. Ento, como uma arma disparando sem cessar, comeram a falar o mais depressa que podiam.
      - O chato do meu irmozinho disse isso ao Rick no telefone! M.as  mentira!
      - Ele acha que voc vai convid-lo para a festa.
      - O Rick? Mas por qu?
       Eu lhe disse que voc o convidaria!
      - Katie!
      - Foi o que voc me disse hoje cedo.
      - No disse, no!
      - Disse sim, em frente dos armrios. Voc disse que perguntou pra sua me, j que este  o ltimo ano dele...
      Cris apertou os olhos, deixando pender a cabea para a frente.
      - Katie! Ela soltou um grito abafado. Eu estava falando do Ted! A formatura do Ted na escola dele. No da formatura do Rick!
      - Ah no! Disse Katie com um gemido angustiado, e recostando-se na cadeira. Eu disse ao Rick que voc ia _onvida-lo e foi por isso que convidei o Leo... para 
que ns quatro fssemos juntos.
      De repente Katie se animou e exclamou:
      - Espera a! Vai dar tudo certo. Voc pode ir s duas festas. Pode at ir com o mesmo vestido. Ningum vai saber!
      - So na mesma noite, respondeu Cris devagar.
      -Ah!
      - E no meu caso, prefiro ir com o Ted.
      - Dou-lhe toda razo, Cris! Voc me disse que ele era bacana, mas  mais do que isso! Ele , bem...
      - Eu sei, disse Cris, a calma voltando  voz. Ele no  um tipo comum, como os outros rapazes que a gente conhece, no ?
      - Isso mesmo.
      De repente, a expresso de Katie ficou extremamente sria.
      - Essa no!
      Cris seguiu o olhar da amiga e seu corao parou. Pela porta de vidro via-se um grupo da escola, prestes a entrar na sorveteria. E,  frente do grupo, Rick 
Doyle.
      
Dentro, Fora 
      6
      A pequena sorveteria pareceu tremer com as risadas dos rapazes que entravam pela porta. Cris e Katie ficaram em silncio.
      Rick se virara e estava de frente para os colegas, fazendo-os rir sem parar de suas piadas. Nem viu o Ted bem  sua frente, equilibrando um copo de gua na 
mo.
      Cris cerrou os dentes e ficou a observar a cena como se j tivesse assistido ao seu ensaio. O brao do Rick esbarrou no copo do Ted, mas no impacto, Rick virou-se, 
usando seus reflexos bem treinados para segurar aquilo em que acabara de esbarrar. Ted, equilibrado como se estivesse em p na sua prancha, nem se mexeu quando o 
copo d'gua caiu. Curvou-se para  trs e protegeu o queixo para evitar que o brao do Rick, que este girava num reflexo, esbarrasse nele. Katie deu um grito abafado 
e Cris agarrou-se a ela.
      - Nossa! Voc viu isso?!
      Cris no conseguia falar. Aquilo no podia estar acontecendo!
      - Puxa, desculpe! disse Rick, mas no parecia muito arrependido; parecia mais envergonhado.
      Os outros rapazes passaram por Rick e Ted, e um deles, rindo, disse:
      - A mar t alta, hein, cara?!
      Bem-humorado, Ted fez-lhe sinal de que estava tudo bem; tudo numa boa.
      Rick soltou uma risada meio sem graa. Passando pelo Ted, olhou de relance o salo, provavelmente preocupado em ver quem tinha notado o incidente. No mesmo 
instante, avistou Katie e Cris. Um olhar estranho, quase de raiva, tomou conta do seu rosto, e ele foi direto para a mesa onde se encontravam as duas.
      - Pensei que voc estivesse de castigo, disse como se tivesse o direito de estar zangado com Cris, por ela se encontrar na sorveteria.
      - No, eu... foi mentira do meu irmo. No estou de castigo, no.
      - Tentei falar com voc hoje, falou Rick abanando a cabea, como que tentando acreditar no que ela dissera.
      - Fiquei sabendo, replicou Cris. Seu olhar foi do Rick para o Ted, que estava no balco pegando outro copo d'gua.
      A balconista tinha passado para o outro lado levando uma toalha de papel para o Ted. Ela falava o tempo todo, ansiosa para ajud-lo a enxugar a camisa. No 
dava para Cris ouvir o que dizia, mas via o rosto sereno do Ted, muito disposto a permitir que aquela moa, aquela oferecida, ficasse tentando agrad-lo.
      Que atrevimento! E como ele deixa?!
      - Katie, voc pode me deixar conversar com a Cris um instante? perguntou Rick.
      A garota olhou para Cris querendo saber o que ela achava,  mas esta tinha uma expresso meio desligada.
      - Claro, replicou Katie, e saiu devagarinho do lugar.
      Cris teve vontade de agarr-la e dizer: "No sai no! Volte aqui!"
      Rick esbarrou as pernas compridas na mesa quando se sentou ao lado de Cris.
      - Ento, disse ele com seu meio-sorriso de sempre, Katie me disse que seus pais concordaram em abrir mo da proibio de que voc saia com algum antes de 
completar dezesseis anos.
      - Bem, ha! Ah!... resmungou Cris sem conseguir raciocinar
      A situao mais constrangedora possvel estava prestes a ,acontecer. Ted voltava  mesa.
      Katie me explicou, disse Rick com animao, um brao por cima da poltrona, o outro na mesa, que j que  a noite da festa de formatura e meu ltimo ano... 
O Leo disse que o pai dele paga uma limusine pra ns quatro.
      A vontade de Cris era desaparecer. Desejava sumir do mapa! Agora Ted estava na frente deles. Tentando livrar-se do Rick e de sua conversa, Cris disse depressa:
      - Ted, apresento-lhe o Rick.  Rick, este  o Ted. 
      Rick virou-se para o Ted.
      - , j nos conhecemos. Esbarramos um no outro agora h pouco.
      - E a? Como vai? disse Ted, confiante, e sentou-se, certo de que no estava interrompendo nada de importante.
      Rick encarou o Ted como quem esperava que ele desaparecesse, mas depois, pouco a pouco, foi-se dando conta de que Ted e Cris estavam juntos e que era ele que 
estava sobrando. Ento levantou-se com os movimentos de um atleta fazendo ginstica. 
      - Vejo voc domingo na igreja, disse Cris, esperando com isso sugerir alguma coisa aos dois rapazes.
      Para o Rick, ela dizia: "Quero conversar mais com voc". Para o Ted, explicava: "Esse rapaz  apenas um amigo da igreja, nada mais.
      Os dois trocaram algumas palavras "legais" e Rick voltou ao seu grupo, puxando uma cadeira para a mesa deles.
      Cris ti n ha a impresso de que o corao ainda no voltara a  bater direito.
      - Ligo pra voc amanh, disse Katie, aparecendo de repente  mesa, e lanando-lhe um olhar que dizia bem mais que isso.
      Virando-se para o Ted, continuou: 
      _prazer em conhec-lo, Ted. Espero v-lo um dia desses.
      O rapaz sorriu e disse algo sobre a Katie ir algum dia a Newport com a Cris, que no ouviu as palavras exatas.
      Ela olhou para trs e percebeu que Rick a encarava. Ele no desviava os olhos dela. Nem ela tirava os seus dele. Rick a olhava de um jeito estranho. Estava 
furioso, ressentido ou com cimes? Talvez estivesse tentando expressar atravs da fisionomia o quanto gostava dela. Cris no conseguia "ler" a expresso dele. Nunca 
o tinha visto daquele jeito.
      O que ser que meu rosto est dizendo pra ele agora? Ser que ainda acha que tenho "olhos de matar"?
      Katie deu um tapinha de leve no brao da amiga, completando:
      - E no se esquea dos nossos anjinhos do maternal domingo que vem!
      E virando em seguida para o Ted, continuou:
      - A Cris me convenceu de que eu deveria oferecer-me como voluntria para ajudar no atendimento s crianas do maternal, na escola dominical.
      - Espera a, contestou Cris, voltando toda a ateno para sua mesa. Se bem me lembro, foi voc que me convenceu a faze-lo!
      - Eu, voc, sei l! No importa! disse Katie.
      - Estarei l. No se preocupe.
      Conversaram mais alguns minutos, e afinal Cris disse:
      -  melhor ir pra casa.
      Passaram entre as mesas e se dirigiram  porta. De propsito, Cris puxou a blusa e ajeitou o short. Qualquer coisa que a fizesse parecer preocupada para no 
ter de encarar o Rick, que certamente estaria de olho nela na hora da sada.
      Ted abriu a porta para Cris e ouviram uma voz exageradamente estridente dizendo, de trs do balco:
      - Tchau, Ted! No se esquea!
      - No se esquea de qu? perguntou Cris, j do lado de fora.
      - Ah! voc sabe. O sorvete de graa. Ted parecia nem ligar para o jeito horrvel daquela garota. Cris resolveu abrir o jogo:
      - Vocs, rapazes, no detestam quando uma moa se joga em cima de vocs do jeito que ela fez?
      - , creio que sim.
      - Tenho certeza, Ted! Ela estava flertando com voc descaradamente!
      - Algumas garotas so assim.
      - Mas Ted, ela  to vulgar! Viu como a maquiagem dela est carregada? Que cara de bolo enfeitado!
      Ted parou bem na frente de um restaurante mexicano. Levantou o queixo de Cris e lanou-lhe um olhar penetrante. E numa voz que a abalou e ao mesmo tempo derreteu 
seu corao, ele disse:
      - Cris, vou lhe dizer uma coisa que espero que voc nunca esquea.
      Seu toque no queixo de Cris era suave, mas firme e decisivo. Ela sabia que ele iria dizer algo que marcaria sua vida. 
      - Foi Deus que fez o rosto dela.
      Cris piscou, tentando entender o significado do que ele dizia.
      - Deus a criou, Cris. Foi Deus que fez o rosto daquela garota. Fico muito chateado quando algum debocha de algo criado por Deus.
      Ele soltou-a, mas Cris permaneceu imvel tentando conciliar as palavras dele com as suas prprias emoes em ebulio. E como que acrescentando um P.S., ele 
completou:
      - No entende? As pessoas olham o exterior, mas Deus olha n interior, o corao.
      Ela estava abalada. Fora sacudida no mais profundo do seu ser. Como o Ted podia fazer uma coisa dessa com ela? Ele se zangara por ela ter tido uma atitude 
no-crist em relao quela moa, por ter desejado fazer picadinho dela?
      Puseram-se novamente a caminhar lado a lado, em silncio. Uma vez fora do shopping, j na rua calma, ladeada de rvores, Cris tomou coragem e passou o brao 
pelo dele.
      - Desculpe-me! sussurrou.
      Ted tomou-lhe a mo, apertando-a. Ela se sentiu tranquila e segura. As expectativas que tivera para essa noite encantada voltaram. Ela ainda no tinha terminado. 
Ainda poderiam ficar sob o jasmineiro. Ele ainda poderia convid-la para sua festa de formatura.
      - Nunca se torne orgulhosa a ponto de no conseguir dizer essas palavras, Cris.
      - O qu? Desculpe-me?
      - Sim. S pessoas de corao quebrantado conseguem e se arrependeram. E os coraes quebrantados so os nicos que Deus pode pegar e moldar.
      - Ted, disse Cris, com voz delicada e aproximando-se um pouco mais dele, sinceramente no sei o que seria de mim se no o tivesse conhecido. No conheo ningum 
a quem possa compar-lo. Talvez voc nunca venha a entender o quanto  importante pra mim.
      E a aconteceu uma coisa que ela no planejara. Seus olhos ficaram transbordando de lgrimas as quais no conseguia segurar, e, inesperadamente, ela soltou 
um gemido e desatou chorar.
      Ted parou e passou o brao em volta dela. Cris encostou rosto no peito do rapaz, derramando mais algumas lgrimas. Mas em seguida comeou a rir. Afastando-se, 
olhou para o Ted, que estava visivelmente espantado.
      - Ted, a sua camisa j est molhada. No tem lugar para, minhas lgrimas.
      Ambos riram. Ela enxugou os olhos e continuaram andando.
      Que descontrole bobo que tive agora! pensou Cris.
      Ento veio-lhe um pensamento que devolveu-lhe o senso de segurana. O Ted fica sempre tranquilo, seja com as minhas lgrimas, seja com a minha risada. Ela 
queria dizer-lhe isso, para de alguma maneira expressar seus sentimentos mais profundos por ele. Mas se o fizesse, ser que no comearia a chorar de novo?
      Continuaram a caminhar em silncio. Os tons pastis do cu davam lugar ao escuro da noite.
      
Jasmins E Algumas Flores Venenosas 
              7        
      Preciso estar no trabalho s 6:30 da manh, disse Ted ao subir a rua da casa de Cris. Por isso vou ter de ir embora. Espero que no se importe se eu no entrar. 
Claro que no. Obrigada pelo sorvete, e desculpe as lgrimas e tudo o mais.
      - No precisa pedir desculpas por chorar, Cris. Voc sabe disso, falou ele lanando-lhe um de seus sorrisos tpicos. 
      Ele permaneceu calado durante o resto do trajeto. 
      Ser que elec est sem jeito de me convidar pra ir  festa de formatura? No   o normal dele, mas sempre pode haver uma primeira vez.
      Estavam na frente da casa, caminhando pela calada. Cris parou exatamente sob a trelia do jasmineiro e pegou um boto branco, que comeou a girar junto ao 
rosto.
      - Humm... Voc tambm deve gostar de jasmim, disse Cris. 
      - O qu? respondeu Ted bruscamente, parecendo abalado. 
      Ela nunca o vira to assustado. Riu de sua reao.
      - O jasmin, disse ela balanando a flor na frente dele. Tem um perfume tropical, doce, como aquelas rvores de que voc gostava no Hava.
      - Ah, ! As plumerias. , essa flor tambm tem um cheiro gostoso. Gosto do jeito como est enroscando nessa coisa, falou ele, admirando a trelia. Vai ser 
legal quando ela estiver toda coberta de... parou um pouco e pronunciou a palavra como que encantado, de... jasmim.
      - . Vai ficar lindo, no vai? disse Cris com ar sonhador. Ted soltou a mo dela e sentou-se no degrau de cima. Em seguida, pigarreou e disse:
      - Sabe quando eu falei ao David que no prximo sbado te a festa de formatura?
      - Sim.  agora! Ele vai me convidar! Que perfeio incrve!!...
      - Eu queria lhe falar sobre isso, mas o engraado  que no tinha certeza de como deveria dizer.
      Ele se inclinou para trs, apoiando-se nos cotovelos e olhou para Cris. Ela sentia-se tremula, mas tentou conservar a calma, sentando-se ao lado dele.
      - Simplesmente diga, Ted.
      - Est bem. 
      Cris esperou.
      -  que vou levar uma moa da minha escola.
      Ela apertou os dentes para no gritar. Continuou sorrindo do mesmo jeito, como antes do Ted pronunciar as palavras que fizeram seu mundo desabar.
      - Eu sabia que voc entenderia, mas, sei l, s vezes acho que as garotas ficam ressentidas por qualquer coisa.
      Ele fez uma pausa e esperou que ela respondesse. Cris sentia gosto de sangue na boca. Engoliu depressa o seco da garganta precisou exercitar muito auto-controle 
para perguntar:
      -  algum que eu conheo?
      - No. Eu a conheci h algumas semanas.
      Algumas semanas? E voc a preferiu a mim? No d pra acreditar!
      - Acho que voc iria gostar dela.  crente h mais tempo de que eu e  incrivelmente firme em seu relacionamento com Deus j
      Por dentro Cris sentia-se partindo em milhares de pedaos, como um prato de porcelana fina que algum despedaou com um martelo. Mas continuou a sorrir.
      -  incrvel como ela  apegada a Deus depois de tudo que passou. Sofreu um acidente de automvel no ano passado. Ficou trs meses no hospital. Est numa cadeira 
de rodas. Provavelmente ficar assim pelo resto da vida.
      Dentro do corao de Cris instalou-se um conflito; sentia d e inveja ao mesmo tempo. Mas a inveja era mais forte.
      E da? Devo ficar com pena dela?  o que voc sente, Ted? Ou ela  mais importante por estar numa cadeira de rodas? Por que, mas porque mesmo voc quer lev-la, 
em vez de a mim?
      J prestes a perder a estabilidade emocional, Cris arriscou mais uma pergunta, procurando disfarar sua decepo.
      - Como  o nome dela?
      Esse era o pior momento, o mais arrasador. Ted sorriu, mostrando a covinha na face. Com um olhar distante, respondeu:
      - Iasmim. O nome dela  lasmim.
      Cris deu um salto, como se um monstro invisvel lhe tivesse dado uma pancada no estmago. Ted tambm se ps de p. 
      - Sabia que voc entenderia. Ei! me diga como vo os ensaios para o teste de lder de torcida. Vou orar por voc, falou o  rapaz e em seguida deu-lhe um abrao 
e um rpido beijo no rosto.
      No ore por mim! No f aa nada por mim! Deixe-me s, Ted. Saia da minha vida e no volte nunca mais!
      Ele se despediu e desceu a rua na barulhenta kombi. Movendo-se como um autmato, Cris virou-se, entrou em casa e passou pelos pais, apenas murmurando que estava 
super-exausta. Finalmente, entrou no quarto e fechou a porta, recolhendo-se ao seu "tmulo" particular. Caiu sobre a cama, abraou o ursinho Puf e rompeu em prantos 
sobre o corpinho amarelo de pelcia. Quando levantou a cabea para respirar, lembrou-se de que fora Ted quem comprara o bichinho na Disneylndia, nas frias. Com 
um gesto furioso, lanou o pobre Puff para o outro lado do quarto, onde ele caiu sobre um monte de roupa suja. Cris sentou-se ainda tremula e fungando, agarrou o 
travesseiro e o abraou, limpando as lgrimas na fronha estampada com flores cor-de-rosa.
      - Ele no gosta de mim. Nunca gostou.  uma grandssima mentira e acreditei nele, disse ao travesseiro ensopado de lgrimas. Ele no liga a mnima para o que 
 importante pra mim. No est nem a! Por mais que eu queira que ele ligue no adianta nada. Ele no quer!
      A, em meio ao caldeiro fervente de suas emoes, veio tona uma verdade horrvel. Cris no sabia mais se estava se referindo a Deus ou ao Ted. Quem no ligava 
para ela? Ambos? At o momento, ela sempre vira os dois muito ligados. Parecia difcil pensar em um sem pensar no outro.
      Est bem, disse consigo mesma tentando raciocinar com mais calma. Vamos clarear isso. Voc consegue. Vamos! Vai dar tudo certo. Sempre acaba dando certo...
      Uma furiosa exploso de angstia apossou-se dela, e mais uma vez apertou o rosto contra o travesseiro e chorou. Quando passou a "crise", Cris decidiu no pensar 
mais no assunto. O sono embalaria e ela deixaria que se apagassem todos os seus sentimentos.
      Ento levantou-se e foi devagarinho at a penteadeira. Pegou a velha lata decorativa, tirou a tampa de plstico disposta jogar fora o contedo: uma dzia de 
cravos secos. O buqu que Ted lhe trouxera antes de dar-lhe o primeiro beijo.
      No conseguiu.
      Em vez de jog-los fora, tirou a pulseira de chapinha gravada "Para Sempre", e colocou-a no meio das ptalas secas. Recolocou a tampa de plstico e foi como 
se cobrisse o tmulo dos seus sonhos. Colocou-a cerimoniosamente no fundo do seu armrio. Assim, ps o ursinho Puf em cima da lata, qual uma sentinela, e declarou 
solenemente:
      - Nunca mais darei meu corao com tal facilidade.
      Na manh seguinte, sentiu-se a mesma. Nada mudara durante sua noite mal-dormida, cheia de sonhos sem sentido.
      Mas uma parte dela estava mais forte: a determinao. Durante a noite ela tinha-se imaginado numa roupa de lder torcida, com Ted, Rick e Rene na platia 
vendo-a dar mirabolantes saltos no ar e aterrissar com preciso. A melhor das lderes  o que ela seria.
      Ela mostraria a todos eles! Ted, Rick, Rene, seus pais e Katie. Provaria que era uma garota importante e digna de ser amada.
      Ficou deitada na cama mais de uma hora, deixando que os pensamentos queimassem as emoes. No iria sentir pena da outra moa, dessa lasmim. Recusou-se terminantemente 
a deixar que renascesse a esperana de voltar com o Ted. Ele era apenas um  amigo. Nada mais.
      Veio-lhe a idia de que talvez ainda no fosse tarde demais para ir  festa de formatura com o Rick. Teria de agir rpido para que tudo desse certo. E resolveu 
que entraria mesmo para a equipe de lderes de torcida. E pronto!
      Quanto s esperanas que tinha em Deus e a promessa que lhe fizera nas frias passadas, de entregar toda a sua vida a ele, bem, no queria pensar nisso. Deixaria 
para pensar em como Deus se encaixaria em sua vida depois do prximo final de semana, depois de vencer os testes e aps a festa de formatura.
      Mais tarde, naquele dia, Katie telefonou. Como Cris estava sozinha em casa, conversaram quase duas horas e meia. Fizeram complicados planos para a festa. Combinaram 
tudo, desde como acertariam as coisas com o Rick at que roupas e acessrios usariam e quando fariam as unhas uma da outra. Tendo resolvido o plano de ataque, Katie 
mexeu na rea que Cris evitara desde o comeo da conversa.
      - Voc vai escrever uma carta para o Ted acabando com tudo, ou pensa em outra coisa?
      - No. O que eu diria? "Voc  um crpula porque prefere levar uma aleijada  festa a me levar?" ou "Sinto muito no ser uma crente muito consagrada. Suponho 
que vocs gigantes espirituais devam permanecer juntos."
      - Sabe o que no entendi? comentou Katie.  como vo-se divertir e brincar.
      - Sei l. Talvez ele v sentar-se no colo dela, e ela rode pelo pelo salo. No di. Ela provavelmente nem sente as pernas.
      - Cris! exclamou Katie fingindo-se chocada, mas rindo alto. Que maldade a sua! E se voc fosse ela? No adoraria se um  cara como o Ted entrasse em sua vida 
e a levasse a uma festa de formatura?
      - , concordou Cris. Acho que sim, mas voc devia ver a cara dele, Katie, quando disse o nome dela... Cris parou no meio da frase com uma lembrana repentina. 
Oh, no! No acredito!
      - O qu?
      - Acabo de me lembrar de uma coisa que eu disse, explicou Cris, sentindo a depresso aprofundar-se mais.
      - O que foi?
      - Na volta pra casa, ficamos parados debaixo da trelia; a eu peguei uma flor, e disse: "Aposto que voc tambm gosta de jasmim" Eu me referia  flor, que 
aproximei do rosto dele pra ele cheirar. Mas voc devia ter visto a cara do Ted! Puxa, como  que fui dizer isso! 
      - Mas voc no sabia que o nome dela era lasmim.
      - Ele est apaixonado pela lasmim. Tenho certeza!
      - Pare com isso! Sabe do que voc me lembra? continuou Katie antes que Cris tivesse oportunidade de responder. Voc parece a Rene na aula de ingls, semana 
passada, quando reclamava do Rick ter recusado o convite dela para o baile. S que ela se queixava de que voc fosse a "outra"!
      - Verdade? indagou Cris com uma estranha sensao de empolgamento.
      - No deixe isso lhe subir  cabea. Das garotas que conhea voc  a que tem o melhor relacionamento com o Rick. No v atrapalhar as coisas. Meu conselho 
: d um tempo ao Ted. Amanh na igreja ns combinaremos os planos para a festa de formatura com o Leo e o Rick. Voc vai ver. Vai dar tudo certo. Essa semana vai 
ser inesquecvel!
      Cris encontrou-se com Katie na manh seguinte, na sala maternal da escola dominical. Katie estava pronta para pr em -prtica os planos.
      Ento algo que tinha gosto de milagre aconteceu-lhe Contudo, j que Cris no estava "de bem" com Deus, recusou-se a reconhecer como milagre.
      D. Nancy Johnson, me de uma das aluninhas, Ashley, trs anos, aproximou-se de Cris, e comentou:
      - Minha filha falou em voc a semana toda.
      Ashley bancava a tmida no ombro da me, mas quando Cris deu um sorriso e estendeu-lhe os braos, ela pulou alegremente para o colo de Cris.
      - ia! To com dodi, disse a bonequinha, mostrando o dedinho envolvido num Band-Aid.
      - Ela enfiou o dedo no apontador de lpis do irmo, explicou a me.
      - Ah! fez Cris e deu-lhe um beijo. Sarou? perguntou ela. Ashley acenou que sim, o rabo-de-cavalo saltando para cima e para baixo.
      - Estive pensando, Cris, se voc poderia cuidar dela para mim de vez em quando? 
      - Claro.
      - timo. Depois a gente conversa, mas j vou lhe adiantando que nas frias vou precisar de uma bab para tempo integral. Se estiver interessada, fale comigo. 
Ashley adora voc.
      D. Nancy afastou-se e Ashley desceu do colo de Cris para brincar de casinha com dois meninos.
      Tem de ser coincidncia, pensou Cris. Ou talvez a minha me a conhea e lhe tenha dito que estou precisando de emprego para pagaras despesas relacionadas com 
a liderana de torcida.
      Com as muitas atividades de Cris, o tempo passou voando. Ela e Katie mal puderam conversar, de to ocupadas que estavam, contando histrias e brincando com 
as crianas.
      Um menininho passou a manh toda isolado. Usava culos que eram afixados por correias que passavam acima das orelhas,  alis, muito grandes para seu rosto. 
O conjunto todo - orelhas, culos e correias - davam-lhe uma aparncia estranha. Finalmente, perto do final da aula, aproximou-se das outras crianas, quando as 
"tias" distribuam papel e lpis de cera.
      - Voc fez um desenho engraado, disse outro menino quando o garotinho exibia seu trabalho. 
      - Fiz no!
      - Fez sim!  engraado.
      O menino caiu no choro e, coitado!, no conseguia limpar os olhos por causa dos culos presos pela ala.
      As duas auxiliares, Cris e Katie, foram acudi-lo, j que a professora estava ocupada com outra criana, que esperneava naquele momento.
      - Qual o problema aqui? perguntou Katie com firmeza.
      - Ele debochou do meu desenho, reclamou o menino, ofendido.
      Com cara mais lavada, aparentando inocncia, o outro explicou:
      - Eu  s disse que era engraado, porque  mesmo.
      - Mas voc zombou do que ele fez com tanto capricho, disse Katie, erguendo o menino enquanto Cris ia buscar um leno. Pede desculpas a ele.
      - No.
      - Voc tem de pedir-lhe desculpas.
      O menino parou, desafiando as professoras e resolvido a no se desculpar. Katie forou a situao usando uma voz mais severa e um olhar de brava.
      - Pea desculpas, agora!
      - Desculpa, falou o garoto, mais parecendo um pintinho piando.
      Mas Katie se deu por satisfeita - justia fora feita, pensava - e deixou a mesa de colorir, porque alguns pais j estavam chegando para buscar os filhos.
      Cris, prestes a se afastar, ouviu o menino que tivera de pedir desculpas, dizer em voz baixa:
      - Voc tem orelha esquisita e uma cara engraada!
      Imediatamente lembrou-se da conversa de sexta-feira  noite com Ted. Cris virou-se depressa e olhou sria para o garotinho. Com voz firme, mas calma, disse:
      - Nunca mais deboche do que Deus fez! Entendeu? Deus fez assim aquele menininho. No deboche mais dele!
      O garoto ficou sentadinho, absolutamente quieto, cabisbaixo. Cris percebeu que suas palavras o tinham assustado. Ela repetira as mesmas palavras do Ted. S 
que o jeito como Ted lhe falara levara-a a quebrantar-se, sem assust-la. Teve vontade de largar tudo. Sentia-se horrvel por ter citado a frase do Ted, sobretudo 
porque desejava continuar zangada com ele. No queria que Ted tivesse razo em nada e detestou o modo com que lhe imitara a espiritualidade.
      Comeou a separar os brinquedos e a coloc-los nas caixas buscando alguma coisa com que se ocupar. Isso deu tempo para que se acalmasse e organizasse suas 
idias e sentimentos. No viu quando o garotinho de orelhas grandes aproximou-se dela por trs e puxou sua saia. Cris virou-se para ele, e fitou-o. Sua carinha tinha 
um ar angelical. O rosto do menino brilhava. Seu sorriso, largo e to sincero, como que "apagava" a feira de culos e das orelhas grandes. Ele olhou para ela como 
se a repreenso dirigida ao menino malvado tivesse mudado sua vida. 
      - Tchau, professora! disse com voz de ratinho, e saiu correndo para a porta onde seu pai o aguardava.
      As pessoas olham o exterior. Deus v o corao.
      Por mais que ela detestasse aqueles pensamentos que lhe traziam  mente mais algumas palavras de Ted, ela permitiu que eles pairassem por um instante, lembrando 
como o rostinho daquele garoto se iluminara.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Os Planos Para a Festa de Formatura 
      8
      Katie conseguiu atrair a ateno de Cris e fez sinal para que fossem embora. As duas saram da sala das crianas para o banheiro, a fim de darem um jeito no 
cabelo antes de comear o primeiro passo do seu plano para a festa. 
      Primeiro teriam de encontrar o Leo. Acabou sendo fcil; difcil seria o rapaz passar despercebido. Usava roupas malucas. Sempre. E seu cabelo mudava a cada 
semana, no s de estilo, mas muitas vezes de cor. Uma coisa podia-se dizer sobre o Leo:  na escola, todo mundo o conhecia e a maioria sabia que ele era cristo. 
Pelo menos estava sempre com a turma da mocidade. Quando as meninas estavam saindo do banheiro, deram de cara com ele.
      - Vocs esto a! disse ele, exagerando no tom de surpresa. Posso acompanh-las ao culto?
      Katie respondeu tambm com os mesmos exageros que Cris achava to engraado nos dois.
      - Voc viu o Rick? perguntou Katie, e saiu deixando Cris um pouco para trs. Temos de verificar se ele concorda, sabe, em formarmos um grupo de quatro, no 
sbado.
      - Ele deve estar em algum lugar por aqui. Vamos procur-lo!
      Leo falava como se fosse personagem de desenho animado. Ento deu um pulinho e saiu imitando Charlie Chaplin.
      Os corredores da igreja estavam cheios de pessoas saindo e entrando das salas de aula e dirigindo-se para o templo. Os trs ficaram juntos e encontraram o 
Rick mais na frente, conversando com um grupo de garotas. Ele logo as avistou, mas continuou conversando, dando a dica de que o grupo que agora o cercava tinha maior 
importncia do que os trs que se aproximavam.
      Katie tomou as rdeas como s ela sabia.
      Ol, Doyle! D uma chegadinha at aqui. Temos assuntos a tratar.
      De repente, Cris perdeu toda a coragem. No era seu estilo ir atrs de um rapaz daquele jeito. Desejou nunca ter concordado com o plano de Katie para a festa.
      Tarde demais, Rick aproximou-se deles, tranquilo, calmo, confiante. Cris pensou em como o Rick ficaria timo numa propaganda de desodorante. Tinha jeito de 
quem no se abala por nada. Mas notou que, enquanto conversavam, ele evitou olhar para ela.
      Ser que ele est zangado sobre sexta-feira passada e o Ted? Ou o problema so meus "olhos de matar"?
      Em menos de trs minutos, Katie havia fechado os planos de formatura. S precisavam decidir a hora em que a limusine viria busc-los. Devia ter batido o recorde 
mundial em termos de dilogo persuasivo. Katie at disse ao Rick onde ele encontraria flores que combinassem com um vestido vermelho, j que o ouvira dizer que ele 
gostava de ver a Cris de  vermelho.
      Por que a Katie disse isso? Que vergonha! E onde  que vou arranjar um vestido vermelho?
      Finalmente Rick olhou para a Cris, e disse em tom de brincadeira:
      - No vou fazer ondas com o Co da Lua, vou?
      Cris vasculhou a memria at lembrar que "Co da Lua" era o nome de um surfista de um velho filme de praia. Forou o riso, como os outros, e fez que "no" 
com a cabea. O olhar do Rick foi diretamente para o pulso dela, onde desde o Ano Novo ela usava uma pulseira de chapinha, agora claramente ausente. No percebera 
que o Rick a tinha notado antes. S as amigas sabiam que fora o Tal quem lhe havia dado a jia.
      - No, disse Rick. Parece que no.
      Estava decidido. Iriam os quatro  formatura. Para oficializar o fato, entraram juntos na igreja e sentaram-se num lugar onde todo mundo podia v-los.
      Cris no ouviu nenhuma palavra do culto. No momento no havia nada que ela quisesse ouvir acerca de Deus ou falar com ele. Ate a hora de acabar, Cris j tinha-se 
convencido de que toda aquela manobra para forar os acontecimentos estava certa. Que lhe importava se no tinha o Ted nem aqueles sonhos todos? Ela faria com que 
esse plano de festa desse certo. Iria com o Rick, ficaria linda e se divertiria muito e todo mundo estaria contente. Todos, exceto uma pessoa que ela se esquecera 
de incluir nos planos de festa: seu pai.
      - No, Cristina. Absolutamente no, disse ele  mesa da cozinha, aps o almoo de domingo. Voc no vai a festa nenhuma. Est completamente fora de cogitao.
      Cris continuou como se no tivesse ouvido.
      - Mas, pai, no  o mesmo que sair com um rapaz, porque vamos ns quatro juntos. E veja s, eles esto contando comigo. O pai do Leo j alugou uma limusine 
para ns.
      - Uma limusine?! exclamou sua me. No entendo voc, Cristina! Voc por algum minuto pensou que seu pai e eu aprovaramos sua ida a um baile? E de limusine?
      - Bem, pensei que abririam uma exceo, por se tratar de meus amigos da igreja, e, na verdade, no  um baile.
      O pai e a me se entreolharam, um esperando que o outro tomasse a iniciativa. Cris achava que conseguiria convenc-los. Com persistncia mas em tom respeitoso, 
perguntou:
      - Querem me explicar por que no posso ir?
      - Para comeo de conversa, voc no pode namorar enquanto no fizer dezesseis anos, disse a me.
      - E ainda mais, interrompeu o pai com um olhar aborrecido, ns no aprovamos esse tipo de festa.
      - Mas por qu? perguntou Cris.
      - A msica...
      A me interrompeu o marido:
      - No permitimos que escute esse tipo de msica nem em casa! Por que permitiramos que fosse a uma festa e a escutasse a noite toda?
      Seu pai continuou com a lista:
      - E o ambiente, o jeito que as meninas se vestem, e a... aqui ele pigarreou e continuou: as danas sugestivas. A resposta  no, Cris. Voc no vai.
      Cris virou-se para a me, esperando que ela lhe desse apoio. Mas o rosto amvel dela tinha uma expresso firme e decidida.
      - Talvez outros pais da igreja permitam que os seus filhos vo, disse, mas eu e seu pai no. Voc ter de dizer a esse rapaz que no poder ir.
      - Mas no posso fazer isso! falou Cris choramingando mais do que pretendia.
      - Diga a ele, simplesmente: "Obrigada por ter me convidado, mas no posso ir", instruiu a me.
      - Mas no foi exatamente ele que me convidou. Eu... bom, fui eu que o convidei. 
      A me encarou-a.
      - Voc fez isso?
      - Fiz. Eu o convidei. Mais ou menos. Na verdade, foi a Katie quem falou por mini, porque ela queria convidar o Leo. E foi assim, e agora ns quatro temos de 
ir juntos.
      O pai levantou-se, apoiando as mos na mesa.
      - Voc resolve isso, Margaret. Se eu continuar, vou me arrepender mais tarde.
      Ele se afastou da mesa, deixando-as a ss. A me de Cris, de to vermelha, parecia estar com o rosto queimado. 
      - Como  o nome do rapaz?
      - Rick. Rick Doyle. A senhora o conhece. 
      - Voc tem o nmero do telefone dele? 
      - Tenho. 
      A me apertou os lbios.
      - Quero que voc ligue agora mesmo para ele e diga-lhe que sente muito, mas foi um grande erro, e que voc no vai  festa. 
      - No posso, me!
      - Pode sim! replicou ela, as palavras bem pausadas e com serena intensidade.
      Cris engoliu para afastar um n de tristeza e orgulho que estava na garganta. Como poderia dizer ao Rick que sentia muito, mas que os planos estavam cancelados? 
O pior momento de sua vida certamente foi aquele em que Rick atendeu o telefone. Com a me ao lado, Cris forou-se a falar:
      - Rick, oi!  a Cris.
      - Ol, "de matar". O que houve?
      - Rick...
      Ela no conseguia. No podia confessar que os planos haviam sido frustrados.
      - O que foi?
      Sua me aproximou-se mais e perguntou:
      - Quer que eu fale com ele? 
      Cris fez que no e afastou-se um pouco. A me recuou um passo e esperou.
      - H! Rick, surgiu um problema e, bem... no posso ir  festa.
      Silncio.
      - Sinto muito.
      Clique. Cris ouviu o som do telefone que acabava de ser desligado.
      Virou-se para a me, segurando o fone como se fosse um rato morto.
      - Ele desligou! disse e caiu em prantos.
      A me colocou o fone no gancho e tentou consolar a filha. Cris reprimiu as lgrimas e sufocou os sentimentos, ansiosa para ficar sozinha no quarto. A me soltou-a, 
murmurando:
      - Sei que  duro, querida. Sei que  duro.
      Ento por que me forou a isso? O que h de to mal em ir a uma festa como essa? Por que me tratam como se eu fosse um bebe? Vocs no se interessam por aquilo 
que  realmente importante pra mim! Vocs simplesmente no se importam!
      Cris jogou-se na cama, pronta para um longo acesso de choro. Mas o pai bateu  porta e entrou. Ela no tinha certeza se deveria esconder seu pesar e interromper 
o pranto, ou descontrolar-se e fazer um escndalo.
      Acabou dando uma estranha amostra das duas opes, olhando-o com um rosto inexpressivo como que a dizer: Voc no pode me magoar. No vou deixar que me magoe! 
S que as lgrimas se recusaram a interromper-se, e rolavam feito uma cascata.
      O pai sentou-se na beira da cama, afundando com seu peso todo o lado por ele ocupado. Um pouco sem jeito, comeou a catar as palavras para dizer. Cris permaneceu 
imvel, implorando por dentro: No grite comigo. Por favor, no me diga que foi um erro estpido que cometi, envolvendo-me nessa coisa toda de planos de festa de 
formatura. No me faa sermo. S me abrace. No pode apenas me abraar e deixar que eu derrame meu corao?
      Ele passou os dedos grossos pelo espesso cabelo castanho-avermelhado.
      - Sabe, as coisas hoje em dia so diferentes de quando eu e sua me ramos jovens. 
      Ela sabia muito bem disso.
      - E algumas coisas aqui na Califrnia so diferentes de onde morvamos, no Wisconsin. 
      Tambm sabia disso.
      - Voc tem de entender que os rapazes so diferentes das garotas.
      Definitivamente, ela sabia disso tambm!
      - Eu sei o que os rapazes pensam quando esto danando, principalmente hoje em dia, com essas letras sugestivas das canes...
      - Pai, disse Cris, tentando interromp-lo. 
      Mas ele tinha mais coisas a dizer. Levantou a mo em sinal de silncio.
      - Eu sei como , Cris, e no quero nenhum rapaz pensando em minha filha desse jeito. Principalmente, no quero ver minha filha afeioada a esse tipo de... 
de... a essa espcie de ambiente. 
      Cris fungou. As lgrimas continuavam caindo. 
      - Eu e sua me queremos que voc seja o que , e no tente ser aquilo que no . Voc tem quinze anos, no dezesseis. E voc  filha de um simples funcionrio 
de laticnio, no de uma estrela de cinema para sair por a de limusine.
      O jeito como ele falara pareceu-lhe to absurdo, que ela acabou misturando risos e tosse, espontaneamente. O rosto do pai enterneceu-se todo, e o semblante 
ficou menos carregado; relaxara-se.
      - Voc vai ter de confiar em sua me e em mim, Cristina. Talvez no goste das decises que tomamos, mas estamos fazendo o melhor que sabemos.
      - Eu sei, disse Cris, sentindo o corao amolecer. Sinto muito. Sabe, fiquei to envolvida com meus sonhos, querendo me arrumar toda e, bem, sentir-me especial 
de verdade.
      A declarao surpreendeu-a. S percebeu depois que falou, fazia meses, talvez anos, que no se abria com o pai de forma to sincera, do fundo do corao.
      - No  errado ter sonhos, disse ele, ainda tentando manter a expresso severa no rosto, mas sem conseguir. Todos ns temos sonhos. A questo :  o sonho 
que nos controla, ou somos ns que o controlamos?
      Cris concordou, limpando as ltimas lgrimas. Era agradvel conversar com o pai como se ambos fossem adultos. E ele nem tinha gritado com ela. Sentia-se pronta 
para o momento de ternura paterna no final da conversa. Talvez ele lhe desse um beijo na testa, como fazia quando era pequenina, antes de dormir. Mas naquele instante 
David bateu na porta do quarto.
      - Cris, telefone!
      - Quem ?
      - Uma moa.
      Cris fez uma careta para o pai como quem diz: "Esses irmozinhos!" Ele sorriu.
      - Como  o nome dela?
      - Sei no. Eu falei pra ela que voc estava chorando no quarto porque estavam ralhando com voc por no ter um namorado.
      - David! gritou Cris sentando na cama e, olhando rapidamente para o pai, como quem pergunta: "Posso ver quem ?"
      O pai concordou, e ela, num instante, cruzou a porta, agarrando David pelos ombros.
      - Por que disse isso?
      David estremeceu, como que gritando por socorro, com palavras que combinavam com a expresso do rosto.
      - Voc me disse pra falar sempre a verdade no telefone. Cris passou em disparada pelo "palhacinho", e pegou o fone.
      - Al?
      - Cris?
      - Sim,  Cris.
      - Oi, Cris! Voc est bem?  Alissa!
      - Alissa?
      Cris conhecera Alissa na praia, nas frias passadas. Elas se corresponderam algumas vezes, mas nunca se falaram pelo telefone, porque Alissa morava em Boston.
      - E ento, Cris? Como vo as coisas por a?
      - Tudo timo. E com voc?
      - Ns estamos timas.
      - Ns? perguntou Cris. Quer dizer, voc teve o... quer dizer, nasceu o nen?
      - Semana passada.  uma menininha.
      - Verdade. Que maravilha, Alissa!
      - Eu dei a ela o nome de Samantha Cristina em homenagem a voc e... bem ao Sam tambm. Ela  linda, mas totalmente careca.
      Cris e Alissa riram ao mesmo tempo.
      - Ento voc est bem?
      - Exceto pelo fato de eu ter engordado doze quilos, sim. Provavelmente, essa  a melhor poca de minha vida, graas a voc.
      - E o que foi que eu fiz?
      - Cris, se voc no tivesse escrito pra mim, me encorajado, falado de Deus e tudo o mais, bem, quando descobri que estava grvida, eu provavelmente teria me 
matado ou feito um aborto ou sei l o qu. Nunca teria ido ao centro de gravidez de risco. S fui l porque voc me disse pra procurar uma igreja e buscar contato 
com pessoas crentes. Eu sabia que simplesmente no podia entrar numa igreja, grvida e tudo o mais, e esperar que as pessoas me aceitassem.
      As palavras do Ted vinham-lhe  lembrana e para livrar-se delas, Cris as utilizou na resposta.
      - Sabe, Alissa, as pessoas olham o que  exterior, mas Deus v o corao.
      - Agora eu sei disso. Minha conselheira, Frances, vive me dizendo a mesma coisa. Ela tem um grupo de apoio na casa dela para grvidas e jovens mes. Eu vou 
toda semana. Elas falam muito sobre Deus e estou comeando a entender algumas das coisas que voc escreveu sobre confiar em Deus e entregar-lhe o corao.
      Aquelas palavras a tocaram profundamente. No momento, Cris sentia-se como se ela e Deus estivessem em guerra pela posse do seu corao, e sabia que ela estava 
ganhando. Aparentemente, Alissa e Deus travavam a mesma luta; s que com ela Deus parecia estar levando a melhor.
      - Bem, e voc entregou?
      - Entreguei o qu? perguntou Alissa.
      - O corao a Deus?
      - No exatamente. A Frances j me explicou tudo, como preciso me arrepender das coisas que fiz e que desagradam a Deus, pedir-lhe perdo e entregar-lhe a minha 
vida. Mas ainda no fiz tudo. Sempre me foi difcil dizer que estou arrependida, e mais dificuldade encontro em confiar a algum o controle de minha vida, sei l, 
como a Frances me explicou.
      Cris estava decepcionada. Desde que conhecera Alissa, desejava que ela entregasse a vida ao Senhor e se tornasse crist. Parecia to prxima de uma deciso!
      - E o Ted, como vai? Vocs esto juntos? perguntou Alissa, mudando de assunto.
      - No exatamente.
      - O que est acontecendo? Seu irmo disse que estava levando um sermo por no ter um namorado ou coisa parecida.
      - Ele confundiu tudo, respondeu Cris meio hesitante, mas resolveu contar tudo a essa amiga de longe que fora to sincera com ela. As coisas com o Ted no esto 
l muito bem. Ele vai levar uma moa de nome lasmim  festa de formatura no prximo sbado, e como ela est numa cadeira de rodas, acho que ele pensa que eu deveria 
ter muita pena dela, como ele tem.
      - Ela, de cadeira de rodas?
      - . Sofreu um acidente de carro. Provavelmente, ela tem longos cabelos loiros como o seu, e eu no me surpreenderia se fosse eleita rainha do baile.
      - Verdade?
      - Bem, no sei, mas ele est louco por ela; portanto, deve haver algo mais rolando entre eles, mais do que me contou. Coloquei-no na minha lista dos "amigos 
somente". Alm do mais, talvez ele nem passe as frias por aqui.
      - E para onde vai ele?
      - Hava. "Coitadinho dele", no? indagou em tom irnico.
      - Gostei muito do Hava quando moramos l. Eu e meu pai caminhvamos na praia toda noite.
      Cris sabia que o pai de Alissa morrera um ano atrs. Pensou se deveria perguntar sobre a me dela, que era alcolatra.
      - Ainda est morando com sua av?
      - No. Ela me botou pra fora uns dois meses atrs, porque eu a envergonhei na frente de todas as suas amigas corretas de Boston. Ela ainda no viu a Samantha. 
Nem minha me.
      - Como est sua me?
      - Do mesmo jeito. Ela j fez o mesmo programa de tratamento duas vezes.
      - E onde voc est morando?
      - Com a filha da Frances.  casada com um cara muito legal e eles tm duas menininhas; portanto a Samantha ter duas coleguinhas pra brincar.
      - Que bom! Fico contente vendo que as coisas esto melhorando pra voc.
      - Eu penso muito em voc, Cris, e em como voc disse que Deus sabe e se importa com tudo em minha vida.  difcil, pra mim, crer, mas penso muito sobre isso. 
Voc d um alo ao Ted por mim? Isto , quando vocs voltarem a se falar. Eu lhe contei que ele me escreveu uma carta incrvel h uns dois meses? Cinco pginas! Acho 
que j li umas cem vezes. Vou guardar pra mostrar  Samantha quando ela tiver idade e souber ler.
      Ted escreveu-lhe uma carta de cinco pginas? Ele nunca escreveu pra mim!
      - Acho bom parar por aqui, concluiu Alissa. E no se preocupe, Cris. As coisas entre voc e o Ted vo dar certo. Sempre acabam se acertando. Mas quando falar 
com ele, diga-lhe que eu acho que ele devia ter levado voc  festa de formatura.
      
      
      
      
      
      
      Amor Ciumento 
      9
      - Como foi seu fim-de-semana, Cris? perguntou-lhe uma menina, na aula de Matemtica, na segunda-feira.
      - Interessante, respondeu ela um pouco desconfiada. 
      Antes disso, uma outra garota que ela nem conhecia se aproximara dela, perguntando:
      - Voc  a garota que deu o bolo no Rick Doyle?
      - O que voc disse?
      - Ouvi dizer que voc fez o Rick sentir o "gostinho" do que ele est sempre fazendo com os outros. Parabns!
      Ela no ligou para os comentrios da colega. Depois, junto aos escaninhos, encontrou a Katie, que foi logo acusando:
      - Espero que voc esteja bem ciente de que arruinou a minha festa de formatura, omitindo-se na ltima hora!
      - Ah, voc j soube! murmurou Cris.
      - Eu e metade do colgio. Ningum jamais deu o bolo no Rick. Eu deveria estar mais zangada, mas acho que j era hora dele experimentar seu prprio veneno, 
e foi exatamente isso que voc fez com ele.
      - No foi essa a minha inteno...
      - Eu e o Leo no vamos nos divertir nada sem voc, sabe.
      - Que  isso? Vocs dois vo se divertir  bessa. Alm do mais, o Rick deve ir  festa assim mesmo; ou no?
      - E eu vou saber? Ele est dando uma de desentendido. Ningum sabe o que ele vai fazer.
      A manh toda Cris evitou encontrar-se com o Rick nos corredores. Queria muito falar com ele, mas ainda no sabia ao certo o que dizer.
      Agora, na aula de Matemtica, ouvindo a colega perguntar como fora o fim de semana, Cris ficou a indagar-se sobre quem mais sabia do acontecido. Aparentemente, 
sua vida era um livro aberto.
      - Ah, ? E o que houve de to interessante? insistia a menina.
      -  que passei alguns momentos bem difceis.
      - Bem, ento espero que a semana seja bem melhor! 
      Pelo jeito como a menina falou, Cris no sabia se estava sendo irnica ou no. A aula comeou, e ela pensou:
      Esta semana tem de ser melhor! Todo mundo est de olho em mim! Preciso me es/orar ao mximo nas provas, e na sexta tenho de passar no teste pra entrar na 
equipe. Isso no vai substituir a festa de formatura, nem o Ted e o Rick, mas pelo menos vai mostrar pra todo mundo que eu consegui. E consegui sem a ajuda de Rick 
Doyle! 
      O professor de Matemtica devolveu as provas da sexta-feira passada. Cris foi a primeira a receber a sua. Um enorme O vermelho no alto da pgina. Fracasso. 
Falha. Bomba! At ento, Cris nunca recebera um O. J ganhara at 4,3, mas um O, jamais. Isso no era jeito de se iniciar uma semana. Ela havia errado todas as questes.
      - Um tero da classe foi reprovado nesse exame, anunciou o professor. Os que foram mal tero de fazer outro em substituio a este, amanh aps o horrio de 
aula.
      timo! Como  que vou estar em dois lugares ao mesmo tempo? Tenho de ir ao ensaio, mas se no fizer a nova prova, estarei numa enroscada daquelas! E quando 
 que vou ter tempo pra estudar?
      E os problemas no diminuram no ensaio. Rene e suas amigas ficaram fofocando, e as trs encararam Cris assim que entrou em campo. To logo ela chegou mais 
perto, Rene disse:
      - Bem, pelo menos meus pais vo me deixar ir ao baile; no como certas pessoas que conhecemos, que so muito novinhas e no podem sair com rapazes.
      As meninas caram na risada. Cris fingiu no se importar e fez os exerccios de alongamento sozinha.
      - Olhe s, ela vai acabar confessando tambm que  criana demais pra ser lder de torcida; espere s. Hei? trocou as fraldas antes de comear o ensaio? No 
queremos nenhum acidente aqui, no  mesmo?
      Cris fez como se no tivesse ouvido a provocao; s uma frase martelava-lhe a cabea:
      No ligue pra. ela. No ligue pra ela. Voc consegue! Voc consegue!
      Quando todas as candidatas se reuniram ali, tornou-se claro que o nmero de esperanosas tinha diminudo. Sobraram apenas oito. Na sexta, os juizes selecionariam 
sete lderes de torcida. Portanto, todas, menos uma, seriam escolhidas.
      Agora tinham muita motivao, cada qual tentando provar que merecia estar entre as sete selecionadas. Ao fazer os exerccios mais algumas vezes, Cris se concentrou 
bastante, procurando deixar os braos retos, os movimentos bem marcados, a voz mais alta.
      J a caminho 
      da grande vitria, 
      Ns no desistimos: 
      Fazemos histria!
      - Est bem, disse-lhes a Prof.a Janet, aps o ensaio. As que esto aqui hoje sabem que a deciso ser entre vocs oito; mesmo que mais uma ou duas das que 
no puderam vir hoje ainda se apresentem. Os prximos trs ensaios sero vitais. Cheguem na hora certa; o atraso pode afetar seu desempenho na sexta-feira. Alguma 
pergunta?
      Cris esperou que as outras meninas fossem embora antes de perguntar sobre a prxima tera-feira.
      - Tenho de fazer uma prova para substituir a de Matemtica e  exatamente nesse horrio que o professor vai aplic-la.
      - Depende de voc, disse a professora. Os ltimos treinos so muito importantes. Voc est indo bem, Cris, mas precisa ensaiar. Ter de ver o que  mais interessante 
para voc.
      - Eu posso ajud-la, ofereceu, Teri, a garota que enfrentara Rene na semana anterior. Se voc se atrasar para o ensaio, fico depois e mostro o que perdeu 
durante a primeira parte.
      - Tem certeza?
      Teri concordou fazendo um sinal com a cabea, e seus olhos castanhos demonstraram sinceridade.
      - Pode ser assim, professora? perguntou Cris, ainda surpresa com a generosa oferta de Teri.
      - Depende de vocs, meninas. Eu estarei aqui at s 16:30. Depois disso, tero de fazer sozinhas.
      - Obrigada, Teri, disse Cris.
      - Por nada. Vejo voc amanh.
      Naquela noite Cris passou pelo menos oito horas e meia estudando Matemtica. Resolveu no contar aos pais sobre o zero que tirara. Para que deix-los nervosos 
quando tinha a oportunidade de melhorar a nota?
      Ficou trabalhando no dever de casa at s 22:00h, tentando concentrar-se nos estudos. O desejo de terminar logo a tarefa de casa era apenas uma das razes 
pelas quais ela se empenhava tanto. A outra intensificou-se logo que ela se deitou.
      Eram os seus pensamentos; e as emoes que estivera reprimindo, guardadas a sete chaves no corao. Agora giravam incessantemente, parecendo chocar-se no escuro. 
Eram pensamentos e sentimentos sobre Ted, lasmim, Rick, Katie, Rene e toda a presso a que ela vinha se submetendo para conseguir classificar-se na equipe. Todas 
as questes da vida giraram em seu subconsciente noite adentro.
      No orou. No orava desde a ltima sexta-feira. Sabia que se sentiria melhor se o fizesse, mas sua teimosia no a deixava ceder. Preferiu continuar sendo motivada 
pela ansiedade e pelo cime.
      No almoo, na tera-feira, Katie notou que Cris no estava usando a pulseira de chapinha gravada "Para Sempre". A garota explicou que a guardaria como lembrana, 
mas que a jia no significava mais nada para ela.
      - O que voc quer dizer com isso? perguntou Katie. Que descartou o Ted de sua vida? Acho difcil acreditar. Outro dia voc disse que ele estaria pra sempre 
no seu corao.
      - Eu disse?
      - Disse sim. Quer saber o que acho?
      - No, replicou Cris, comendo seu sanduche e sabendo muito bem que Katie no ligaria para sua resposta.
      - Acho que no fundo voc o ama, mas est com medo de sofrer porque seu relacionamento vive em altos e baixos.
      - No. O Ted foi s uma fantasia. Sempre quis que ele se interessasse por mim como eu me interesso por ele, mas ele sempre ficou na dele. No servimos um para 
o outro. Sou ciumenta demais.
      Cris nem percebera que sentia essas coisas. Surpreendeu-se ao ouvir o que sara de sua prpria boca.
      - Ser que fui eu mesma que disse isso agora?
      - O qu? que tem cimes?
      -.
      - Foi o que voc disse. Mas sabe o que penso? Acho que o cime  uma coisa normal quando se ama algum;  uma boa maneira de se demonstrar o quanto a gente 
se interessa por esse algum. Quanto mais cimes, mais a gente gosta.
      Cris no acreditava nisso. Afinal de contas, Katie no tinha muita experincia em questes de amor. Como poderia saber o que  normal e o que no ? Alm do 
mais, quando Ted citou aqueles versculos sobre o amor, disse que o amor no ardia em cimes. Dessa parte ela se lembrava.
      - Sei no, Katie. S sei que essa lasmim certamente  mais importante para o Ted do que eu. Devo estar l embaixo na escala de valores dele, j que minha rival 
 uma garota numa cadeira de rodas.
      - Ah, que  isso, Cris, calma! Acho que voc no est vendo as coisas da maneira correta. Quer dizer, mesmo que o Ted a tivesse convidado, acha que seus pais 
a deixariam ir?
      - Sei l. Talvez. Eles o tratam como se fosse um sobrinho querido, h muito desaparecido.
      - Eles tm toda razo. Eu tambm o trataria assim. Ele parece um cara perfeito.
      - . Bom, talvez seja demasiadamente perfeito. Espiritual demais. Est sempre tentando ver as coisas do ponto de vista de Deus, e isso  difcil pra mim. No 
consigo acompanh-lo. Simplesmente no penso do seu jeito e nem vejo as coisas pela perspectiva dele.
      Katie amassou o saquinho de lanche, agora vazio, fazendo uma bolinha. Mirou a lata de lixo e atirou. Fez "no" com a cabea, o cabelo ruivo, liso, esvoaante 
como cortinado de organdi.
      - Se quer saber minha opinio, acho que vale a pena voc tentar acompanh-lo. Quer dizer; voc no prefere a companhia de um sujeito que j se encontra alguns 
passos  sua frente emocional ou espiritualmente, ou seja l como for? Parece que os poucos rapazes que j pintaram em minha vida s andam  minha frente fisicamente. 
Entende o que quero dizer?
      Cris sorriu e concordou. Sabia exatamente do que Katie estava falando.
      - Sabia, disse Katie, sussurrando e inclinando-se para a frente, que alguns casais reservaram quartos no hotel Coronado pra depois da festa?
      - Est brincando!
      - No!  verdade. Tambm ouvi dizer que no ano passado, depois do baile de formatura, seis jogadores da equipe de futebol, com suas respectivas namoradas, 
foram presos por estarem fazendo algazarra num quarto de hotel. Estavam bbados e faziam muito barulho. Chegaram at a quebrar alguns mveis. A segurana do hotel 
botou-os pra fora.
      - Que coisa revoltante! Por que no pode ser um baile bonito, tranquilo e sem maldade, como nos filmes?
      -  mesmo, disse Katie, enquanto o sinal tocava, anunciando o fim do horrio de almoo. Espero muito que outro casal v conosco, porque, sinceramente, no 
sei bem o que  diverso para o Leo.
      Cris correu para a aula de Espanhol, mas o comentrio final de Katie ficou em sua mente. Ser que o Leo pensaria diferente de Katie quanto  noite de formatura? 
Ele parecia meio chegado a uma encenao, como o aluguel da limusine j demonstrava. E Cris j tinha percebido que, s porque um rapaz se diz cristo, isso no significa 
que ele esteja vivendo de acordo com o sistema de valores de um crente verdadeiro.
      Era estranho, mas pela primeira vez Cris sentiu alvio de no ir  festa com o Rick. S a presso dos testes para lder de torcida j bastava para uma semana, 
sem mencionar a prova de Matemtica.
      A segunda prova acabou sendo mais difcil do que a primeira. Cris entregou a sua e saiu da sala com uma dor de cabea de rachar.
      A ltima coisa que queria na vida era enfrentar Rene e ficar atrs das outras candidatas. No fosse Teri ter-se oferecido para ajud-la, provavelmente teria 
desistido de todo o seu sonho.
      - O que voc est fazendo aqui? perguntou Rene, cerrando os dentes quando Cris veio ocupar seu lugar, depois de as garotas j terem feito uma srie de evolues. 
A rea do maternal  do outro lado da rua.
      Teri virou-se para Rene, e disse:
      - J estamos cheias dos seus comentrios, Rene. A idia que se faz da gente  que somos uma equipe, no  mesmo? Pois bem: se voc deseja tanto assim malhar 
algum, por que no critica a mim, que sou mexicana?
      - Eu nunca faria isso, Teri! falou Rene, parecendo ofendida. Suas amigas logo a cercaram, e Rene continuou a defender-se.
      - No tenho preconceito contra hispano-americanos ou qualquer outra pessoa!
      - Ah, ? Ento por que fica azucrinando a Cris s porque ela est no primeiro ano e ns, no segundo?  o mesmo que debochar de mim porque a minha pele  de 
cor diferente da sua. Eu no posso modificar isso, e a Cris no pode mudar o fato de que  uma primeiranista. A nica que pode mudar aqui  voc, Rene. Pode mudar 
de atitude.
      A Prof.a Janet interferiu e mandou que as meninas se sentassem. Elas atenderam, mas sentaram-se bem distantes umas das outras. Ento a professora, encarando 
Rene, que ficou com os braos cruzados, em sinal de pouco caso, completou parecendo preocupada:
      - Tem uma coisa que eu j devia ter-lhes dito. No sei o que tem acontecido nessas ltimas semanas de ensaio, mas posso lhes dizer o que vai acontecer nos 
prximos dias, e depois que a equipe estiver formada. Sim, seremos uma equipe. Um time onde todas trabalharo juntas, cuidando umas das outras, ajudando-se mutuamente. 
Cada uma de vocs ter o mesmo valor para mim e para as outras. Entenderam? As meninas fizeram que sim, e ela continuou:
      - No admito, e no haver nenhuma dessas atitudes negativas; desses comentrios maldosos. No sei de tudo que vocs andaram falando, e nem quero saber, mas 
acho que  hora de pedir desculpas. Se alguma de vocs precisa pedir desculpas a qualquer outra, faa-o agora. Eu espero que vocs faam isso antes do prximo ensaio.
      Ningum se mexeu. Cris vasculhou a mente procurando lembrar-se de alguma coisa pela qual tivesse de pedir desculpas, mas sentia-se a prpria vtima. Ela  
que deveria receber pedidos de desculpas.
      - Desculpem, disse Teri ao grupo. Eu no devia ter explodido daquele jeito. Desculpe se a ofendi, Rene.
      Rene no acolheu o pedido de desculpas, nem as pediu a ningum.
      - Est bem, disse a Prof.a Janet, quebrando a tenso. No posso for-las a isso, mas farei deste grupo uma equipe. Vamos em frente, e lembrem-se: temos de 
trabalhar juntas, em mtua cooperao!
      Ensaiaram a prxima sequncia de evoluo durante dez minutos, aps os quais foram dispensadas. Ningum tinha muito a dizer. Cris permaneceu no campo com Teri, 
e passaram  sequncia de movimentos que Cris havia perdido no incio do ensaio.
      - Obrigada pelo que voc disse, Teri. Foi realmente legal, disse Cris.
      Teri afastou do ombro a longa trana, e abanou a cabea.
      - No fui muito legal no que disse, no.
      - , mas conseguiu transmitir a idia.
      - Talvez. Mas se no consegui dizer com amor, no adiantou nada.
      Cris assustou-se com as palavras da amiga. J ouvira aquela expresso. Seria do Ted?
      - Isso  da Bblia?
      - Sim, em Primeira aos Corntios.
      - O captulo do amor, acrescentou Cris, animada. O meu na..., quer dizer, conheo um rapaz que falou sobre isso na semana passada. Ele est decorando. O captulo 
todo.
      - Ento ele  crente? perguntou Teri.
      - Se ! E eu tambm. E voc?
      - Sou! exclamou Teri com entusiasmo.
      As duas se abraaram como se tivessem acabado de descobrir que eram parentes. Depois, falando rapidamente, Teri contou  Cris um pouco de sua vida. Contou 
que frequentava uma igreja onde s se falava espanhol e onde o pai dela era um dos pastores. Sob o efeito dessa ardente comunho agora estabelecida entre elas, no 
lhes sobrou muito tempo para o ensaio, mas decidiram ficar depois das aulas, na quarta e na quinta, para se ajudarem.
      
      


      
      
























      Uma Vitria Vazia 
      10
      A quarta e quinta-feira passaram voando, e Cris melhorou muito com a ajuda de Teri. Mas percebeu que a amiga era melhor que ela. Era graciosa e tinha um sorriso 
que se via das arquibancadas.
      A inteno de Cris de vencer as concorrentes emprestara-lhe uma tremenda energia por mais de uma semana. Porm o fato de ter-se tornado amiga de Teri complicou 
mais as coisas, porque no desejava ficar na equipe se Teri fosse reprovada.
      No dia da prova, ela orou. Bom, no foi bem uma orao; foi apenas uma petiozinha.
      "Por favor, Senhor, deixe que ns duas entremos para a equipe. Juntas poderemos ser melhores testemunhas tuas."
      Cris acrescentou essa ltima parte pensando que talvez Deus teria mais disposio em atender, se houvesse alguma vantagem pra Ele.
      Na escola a sexta-feira passou em branco. Durante a aula de Espanhol, e com os ps debaixo da carteira, Cris ficou movendo as pernas nos passos da sequncia 
dos exerccios. No conseguiu almoar. Procurou a Teri por toda a escola at encontra-la. Juntas treinaram a sequncia num cantinho do ginsio de esportes.
      Finalmente deu a hora: trs da tarde. Cris foi a primeira a chegar e a vestir o uniforme, que tomara emprestado de uma das participantes do ano passado. Ficou 
em frente do espelho do vestirio, admirando o modo como as listras azuis e douradas acentuavam cada movimento que fazia.
      As outras sete candidatas foram chegando logo em seguida. Eram 15:15 e dava para Cris sentir que havia como que uma corrente eltrica de empolgao no salo, 
enquanto as meninas verificavam os ltimos detalhes do uniforme e das fitas no cabelo.
      - Cris, aqui, chamou Teri. Tente prender a fita debaixo do prendedor do rabo-de-cavalo. Espere, deixe que eu arrumo.
      - Meu cabelo nunca pra dos lados, reclamou Cris, enquanto Teri amarrava a fita azul-real.
      - Use mais laqu, sugeriu Teri, cujo cabelo estava perfeito, enrolado nas pontas e preso com uma fita dourada.
      - Espere a, continuou ela. Feche os olhos. Eu ponho.
      Teri borrifou o laqu, arrumou o cabelo de Cris e anunciou:
      - Pronto. Est perfeito, e acredite, vai ficar no lugar.
      Cris abriu os olhos e viu que realmente ficara muito bom depois do toque "mgico" de Teri. A ela viu a Rene, cujo cabelo escuro estava emoldurado por duas 
fitas, uma azul e uma dourada.
      - Por que est ajudando ela? perguntou Rene a Teri. Teri no olhou para ela. Calmamente, continuou guardando a escova e o laqu de volta na bolsa e respondeu:
      - Voc no vai querer saber.
      - O que quer dizer com isso, "no vai querer saber"? Estou perguntando, no estou? Por que voc fica ajudando ela?
      Cris ficou maravilhada com a fora e a autoconfiana de Teri, e com o seu jeito - no se abalava com Rene.
      - Eu vou lhe dizer o porqu, mas voc no vai gostar de ouvir.
      - Por qu? desafiou-a Rene, com a mo na cintura.
      - Porque  a mesma razo que eu lhe apresentei no ano passado, depois das provas para lder de torcida, quando voc me perguntou se eu estava zangada por voc 
ter conseguido entrar e eu no.
      - Ah! exclamou Rene irritada. Quer dizer aquelas coisas de ser menina de igreja.
      Cris ficou a observar, pelo reflexo delas no espelho, as duas moas se encarando. O rosto de Teri era terno e bondoso, ao passo que o de Rene era duro e carrancudo.
      - No  que eu seja menina de igreja, Rene.  que amo a Deus. E a Palavra dele diz que se o amo, devo amar o meu prximo como a mim mesma.
      Rene ficou sem resposta. Tinha no rosto uma leve expresso de dor. Abandonando de sopeto o dilogo, gritou para as outras:
      -Vamos l, gente! Temos de nos apresentar s 15:30.  agora mesmo!
      Dando uma ltima olhada no espelho, as garotas se enfileiraram e entraram no ginsio com a maior calma possvel. A Prof.a Janet entregou a cada uma um crculo 
de papel com um nmero para prenderem no uniforme e apontou para as oito cadeiras  sua frente, cada uma com o nmero correspondente.
      Cris foi para a sua cadeira, a de nmero quatro, e correu os olhos pelas arquibancadas. Num relance viu sua me. Deu um sorriso forado, nervoso. Ainda sorrindo, 
desejando parecer confiante e cheia de energia, Cris olhou para a fileira de juizes. Nenhum deles retribuiu-lhe o sorriso.
      - Nmero um, disse um dos juizes, e a primeira candidata se levantou.
      Tinha de ser Rene, pensou Cris.
      Dado o sinal, Rene foi para o centro do ginsio e a deu o melhor de si. Era excelente. Exteriormente, tinha tudo o que uma lder de torcida de primeira categoria 
necessitava. Chamaram a n. 2 e o estmago de Cris comeou a revirar-se.
      E se eu me esquecer de tudo? E se eu cair de cara no cho? E se...
      Seus pensamentos foram interrompidos por um tapinha no ombro. Algum que ela no conhecia entregou-lhe um papel e se afastou depressa. Abriu o bilhete e leu: 
"V em frente, 'de matar'. Estou com voc at o fim!"
      Rick? Ela olhou  sua volta mas no o viu. Tinha conseguido evitar encontrar-se com ele a semana toda e no sabia bem se desejava encar-lo, caso o encontrasse 
agora.
      O que quer dizer isso? Que ele no est mais zangado sobre a festa de formatura?
      Chamaram o nmero trs e Cris continuou pensando. Na verdade, ele foi bastante legal me apoiando nessa questo de ser lder de torcida. Ns concordamos que 
seramos amigos, acontecesse o que acontecesse. Na certa ele compreendeu. Sinto um alvio to grande!
      Ainda bem, porque de repente o nmero quatro foi chamado. Com entusiasmo e um jeito todo especial que a destacava das demais candidatas, Cris correu para o 
meio do ginsio.
      0-l-l, -l-l, cuidado conosco
       S jogamos pra ganhar! 
      Os Cougars tm garra. 
      Mais que os demais, 
      Vo ser os vencedores,
       No perdero jamais!
      Respirando fundo e tremendo de empolgao, Cris correu de volta para seu lugar. Cada nervo seu tremia. Consegui! Consegui!
      Fez um esforo gigantesco para se recompor, sentando-se calmamente em seu lugar. Sabia que havia feito uma excelente apresentao. Era boa naquilo, muito boa.
      Olhou para a arquibancada  procura do Rick. Sua me viu-a correndo os olhos pelo local e acenou-lhe dando um imenso sorriso. Retribuindo o sorriso, Cris continuou 
procurando o Rick. Onde estaria?
      Recostando um pouco para trs, tentou ver se estava atrs dela. Encontrou o olhar de Teri. Que sorriso contagiante, animador!
      Teri formou a palavra "perfeito" com os lbios e Cris sentiu-se aquecida pelo calor do elogio da amiga.
      Teri sabe demonstrar amor s pessoas. Queria ser como ela!
      Cris desistiu de procurar o Rick. Concentrou-se em observar as garotas de nmero cinco e seis. Interiormente torcia pela Teri. Vamos l, Teri. Sei que voc 
vai conseguir!
      As duas garotas seguintes se saram muito bem, e depois veio uma das amigas da Rene. Cris no achou grande coisa a sua apresentao, talvez porque, pessoalmente, 
tambm no morresse de amores pela garota. Quando estava na metade da apresentao, ela errou e pediu aos juizes permisso para repetir tudo.
      Cris desejou sentir pena da amiga da Rene, mas na verdade ficou contente por ver que ela perdera pontos na classificao. Isso dava a Teri a vantagem de que 
ela precisava. A pobre Teri tinha o nmero oito, a pior posio - a de ltima candidata.
      Teri saltou para o meio da quadra.
      V em frente, Teri!
      Cris sabia que a Teri seria a melhor de todas. No apenas porque conhecia muito bem os passos, mas porque ela enfrentara Rene e no receava falar de seu relacionamento 
com Deus. Certamente Deus deixaria Teri ser lder de torcida, e mais ainda porque no ano passado ela no tinha conseguido a vaga.
      Teri comeou tocando os ps, o que fazia melhor que qualquer outra pessoa. Mas algo aconteceu e ela se desequilibrou. Caiu no cho e todos na platia soltaram 
uma exclamao. Conseguiu levantar-se e terminar a apresentao que acabou sendo fraca e sem brilho; nada parecido com seu estilo normal.
      Os espectadores aplaudiram fortemente a Teri, que mancava ao voltar ao seu lugar. Cris viu as lgrimas escorrendo pelo rosto da amiga. Com dignidade, Teri 
sentou-se em sua cadeira e ficou aguardando com as demais, embora estando claro para todos que ela sentia fortes dores.
      Cris tinha vontade de correr para l e fazer alguma coisa. A conselheira conversou baixinho com Teri e deu-lhe um saco de gelo, que a garota colocou no tornozelo, 
esperando a outra etapa do teste.
      Os juizes terminaram de somar as notas e chamaram as candidatas de volta. A parte final era a mais fcil. As meninas faziam um pequeno nmero juntas, a fim 
de mostrar como elas atuariam em equipe. Saltando dos seus lugares, batendo palmas, dando vivas e urras, e com as saias coloridas balanando. acabaram formando uma 
equipe.
      Teri no fora; no as acompanhara. Cris olhou para ela, sentada sozinha, segurando a compressa de gelo no tornozelo.
      A deciso fora tomada. Todos sabiam disso. Como Teri no participara dessa apresentao, no seria classificada. As sete meninas no meio do ginsio constituiriam 
a equipe de lderes de torcida para o ano seguinte.
      Voltaram aos seus lugares, olhando triunfalmente umas para as outras, sabendo que o corte havia sido feito, e no foram elas as cortadas. Nunca tinha havido 
to poucas candidatas para o grupo. Geralmente apresentavam-se umas doze meninas.
      O Colgio Kelley tinha como tradio s anunciar as classificadas para a equipe uma semana depois dos testes. Esse ano no haveria surpresas. Todos os alunos 
e pais que tinham vindo assistir  prova sabiam que ali estavam as sete escolhidas.
      Com as provas oficialmente encerradas, ps barulhentos desciam as arquibancadas. Cris desceu correndo para o vestirio  procura de Teri. Encontrou-a na sala 
da treinadora, o p sobre uma cadeira, coberto com um grande saco de gelo. As lgrimas haviam borrado sua maquiagem, e Teri estava com um aspecto de fazer d.
      - Voc est bem? perguntou Cris, baixinho.
      Suas emoes iam l em cima, quando pensava na sua vitria, e a seguir l em baixo, ao perceber a situao de Teri. Era uma terrvel mistura de sentimentos 
para se aguentar de uma s pancada.
      - No, mas vai passar.
      A voz de Teri tremia. Ento, com uma fora e dignidade desconhecida por Cris num momento desses, Teri continuou:
      - Parabns! Estou contente por voc ter entrado. Cris sentia que ela estava sendo sincera.
      - Estou muito sentida, falou Cris.
      - No fique assim! Voc deve ficar bem satisfeita com o que conseguiu. Fez sua apresentao muito bem. Foi a melhor que voc j fez!
      - Mas eu no teria conseguido se no fosse voc. Espero que saiba disso. Fico to sentida pelo que lhe aconteceu, Teri! Naquele momento, a me de Cris, aproximando-se, 
perguntou:
      - Voc est bem, querida? Teri fez que sim com a cabea.
      Virando-se para Cris, a me disse:
      - Cris, tenho de confessar que nem reconheci a minha filha naquele ginsio! Voc foi maravilhosa!
      - Obrigada, me, replicou Cris com um sorriso meio sem graa.
      Era o que ela queria o tempo todo - o reconhecimento, o louvor, a admirao de seus amigos e familiares. Mas agora, ouvir isso na frente da Teri transformava 
sua vitria num prazer vazio, oco. Como podia gozar da realizao do seu sonho, quando quem mais a ajudara acabava de ver o seu despedaado?
      - Quer voltar para casa comigo agora, ou ficar mais algum tempo no ginsio, com as colegas? perguntou sua me.
      - Prefiro ir embora. Tchau, Teri, falou Cris abraando-a com carinho. Eu a vejo segunda-feira. Cuide bem do seu p, O.K.?
      Cris e a me saram da sala de treino e quase se chocaram de frente com Rene, louca de alegria. Nem mesmo ver Cris diminuiu seu entusiasmo.
      - Oi! disse ela com um gritinho estridente. Acho que voc, oficialmente, j  parte da equipe, heim? Parabns! Tenho certeza de que ser tima para o grupo.
       porque minha me est aqui que ela est falando com essa doura? Ou porque a D. Janet falou a semana toda sobre a importncia de sermos uma equipe unida? 
Ou porque a presso acabou e ela sabe que conseguiu entrar e assim no h dvidas de que ela ser chefe de torcida?
      - Obrigada, murmurou Cris cordialmente, mas no com a mesma doura. E parabns a voc tambm, Rene.
      O rosto de Rene estava alegre e animado, e ela retrucou:
      - Ser que havia alguma dvida de que eu entraria no time?
      - Vamos parar e tomar um sorvete para comemorar, sugeriu a me a caminho de casa. Seu pai vai ficar muito feliz com voc! Queria que ele a tivesse visto! Cris, 
eu no imaginava que voc tivesse tanto talento. Voc fez tudo muito, mas muito bem!
      Cris devia estar animada e disposta a comemorar, mas na verdade sentia-se pequena e desanimada. Voc se surpreenderia, me, se soubesse o quanto ignora a meu 
respeito. Voc no me conhece mesmo! Ningum conhece. A no ser, talvez, Deus. Mas que Deus  esse que deixa a Teri torcer o p sabendo o quanto eu preciso dela 
na equipe comigo?
      Perguntas complicadas ficaram martelando na cabea de Cris todo o final de semana. Por fora, ela agia conforme todo mundo esperava: alegre, empolgada e orgulhosa 
de ter conseguido vencer. Tia Marta e tio Bob telefonaram na sexta  noite e prometeram que viriam assistir a todos os jogos que pudessem. Marta insistiu em pagar 
por todo o jogo de uniformes de Cris, no importava o preo.
      Mas, por dentro, Cris nunca se sentira to s.
      Sbado  noite, dia da festa de formatura, Cris convenceu a me a locar um filme e as duas sentaram-se no sof para assistir O Homem do Rio das Neves. A me 
chorou em algumas partes; Cris chorou o tempo todo. A msica de piano que "Jessica", a menina do filme, tocava quando pensava no namorado, ficou perturbando Cris 
o resto do final de semana.
      No domingo pela manh, sentiu-se ainda mais aborrecida quando entrou na sala do maternal. Katie no viera. Cris sentiu toda a tristeza de no ter participado 
da festa.
      Agora, o fato de haver entrado para o grupo de lderes de torcida nem parecia importante. Estava descontente e s. Isso a surpreendia. Cris achava que to 
logo se tornasse lder de torcida, se sentiria bem, satisfeita e cheia de energia todo o tempo. Mas no era assim. Sentia-se deprimida ao passar a massinha para 
as crianas.
      - Aqui a sua, disse ela, entregando uma bolinha de massa para Ashley.
      - Faz uma coisa pla mim, Clis, disse Ashley, com seus olhos de boto azul, fitando Cris esperanosos.
      - Est bem. O que voc quer que eu faa?
      - Num sei.
      - Aqui, olha! falou Cris e rolou a massinha entre as mos, fazendo um fio longo.  uma cobra!
      - Ai, que medo! No quelo coba, no!
      - Olha, "fessora", disse um menino, eu tambm fiz uma cobra.
      E ele a colocou no rosto de Ashley, que gritou de susto.
      - Est bem, est bem, disse Cris, e amassou na palma da mo a massa verde, deixando-a espremer-se por entre os dedos. Vamos fazer qualquer coisa que voc quiser, 
Ashley. Aqui, amassa um pouco tambm.
      Uma torrente de idias rolava pela cabea de Cris enquanto ela mexia com a massinha. Certa vez dissera ao Rick que ele a fazia sentir-se uma massinha. Ser 
que ele, como dissera a Katie, estava tentando transform-la em objeto dos seus caprichos, como se ela fosse um brinquedo de modelar?
      Outro pensamento, do Ted, lhe veio  mente: Deus s pode pegar e moldar um corao quebrantado.
      - Hora da histria, anunciou a professora.
      Algumas crianas foram correndo para o tapete do cantinho de histrias, enquanto outras mais vagarosas tentavam terminar os seus projetos. Cris ajudou-os a 
termin-los e ps-se a preparar o lanche escutando de longe a historinha bblica. A professora contava sobre Davi e Jnatas, quando uma menina interrompeu:
      -A minha amiga tem irmos gmeos. O nome deles  Davi e Jnatas.
      - Mas estes aqui so outro Jnatas e outro Davi, explicou a professora sorrindo. Esses meninos viveram nos tempos bblicos, muito tempo atrs. Eram muito amigos 
e os dois amavam a Deus. O pai de Jnatas era o rei.
      - Meu amigo tem um cachorro que se chama "Rei", disse um menininho.
      - Agora vamos escutar a histria, continuou a professora, com pacincia.
      Eu nunca conseguiria dar aula para uma turma de baixinhos como esses, interrompendo o tempo todo como fazem! No tenho pacincia!
      - Ora, Jnatas merecia ser o novo rei, porque era filho do rei. Mas sabe? Deus queria que Davi fosse rei, e Jnatas sabia disso. Ser que ele brigou com Davi 
e disse: "Eu mereo ser rei. Saia do meu caminho!"?
      Todas as criancinhas abanaram a cabea e disseram: "Nooo."
      - Isso mesmo. Jnatas amava Davi e o ajudou a tornar- se o prximo rei, porque sabia que Deus queria que o rei fosse Davi, e no ele. Sabem o que a Bblia 
diz sobre o amor?
      Cris ficou totalmente imvel, esperando ouvir o que a professora tinha a dizer, no apenas para as crianas, mas para ela mesma.        
      A professora citou de cor o "Captulo do Amor". "O amor  paciente,  benigno, no arde em cimes..."
      Cris se desligou de tudo. No! Outra vez aqueles versculos,  no! Ela no queria se lembrar do Ted novamente. Agora no. Cantarolou ento a msica do filme 
que assistira com a me no fim de semana, para no ouvir o resto da histria. 
      
      
      
      
      Posso Esperar 
      11
      Cris entrou para o culto sozinha. Nenhum dos seus amigos viera; provavelmente estavam cansados demais da festa. A solido que sentia, fazia j alguns dias, 
parecia prestes a estourar. Encontrou os pais e sentou-se com eles, o que lhe deu a sensao de segurana e conforto.
      Tentou participar do culto, cantando e acompanhando o sermo com sua Bblia. At mesmo sublinhou uns dois versculos.
      Estranho, mas de repente veio-lhe  mente uma frase da lio das crianas: "Deus queria que Davi fosse rei, e Jnatas sabia." No entendia por que, mas o pensamento 
ficou martelando.
       tarde, quando todos em casa tiravam uma soneca, Cris releu uma carta enviada por uma amiga de velhos tempos. As duas haviam sido boas amigas desde o maternal, 
mas Paula ainda morava na cidade natal das duas, l no Wisconsin.
      A correspondncia de Paula era curta, escrita com letras grandes, onde os pingos na letra "i" eram coraezinhos, em vez de pontos. Ela escrevia sobre rapazes. 
Vrios rapazes. Gente que Cris no conhecia. Parecia tudo muito distante; como se fosse outra vida.
      Mas Paula escrevia pelo menos uma vez por ms, e em cada carta falava de como estava economizando para visitar a Cris nas prximas frias. No comeo, o que 
Cris mais queria era receber a visita dela, para que conhecesse sua nova vida na Califrnia. Mas com o passar dos meses, Paula fora se tornando uma desconhecida.
      Cris sabia que tinha de responder  carta da amiga e contar-lhe sobre a vitria no concurso para lder de torcida, e tudo o mais. Mas depois de ficar rascunhando 
numa folha de caderno durante uns dez minutos, desistiu e resolveu telefonar para Katie.
      - E a, Katie? Quais as novidades? Divertiu-se?
      Katie demorou alguns instantes antes de dizer:
      - . Acho que estava tudo bom.
      - Tudo bom?  s isso que voc tem a dizer? Foi tudo bom?
      - . Voc no perdeu grande coisa.
      - Katie, o que foi que aconteceu?
      - Nada.  isso a. No aconteceu nada. Eu tinha um imenso sonho sobre como seria a festa, mas no foi nem um pouco como eu pensava.
      - Quer dizer que voc no se divertiu com o Leo? Ele sempre  a alma da festa!
      - Exatamente por isso foi to chato. O "alma da festa" saiu por a e nem ligou pra mim. E foi o tempo todo assim. S conversamos um pouquinho, e isso porque 
eu forcei a barra. O resto do tempo fiquei parada, observando os outros se divertirem.
      Cris ficou sem saber o que dizer. Procurou algum ponto positivo na situao.
      - E ele lhe trouxe flores?
      - Sim, respondeu Katie rindo, mas no  uma lembrana feliz. Ele me deu um buqu para colocar na roupa. No combinava com meu vestido de jeito nenhum. Eu tinha-lhe 
dito que meu vestido era azul. Ele disse que esqueceu. As flores eram verdes. Verdes, Cris! Sabe como eles pintam os cravos brancos? Bem, as flores eram pintadas 
de verde e pareciam uma sobra de liquidao da festa de So Patrcio.*
      * Nos Estados Unidos, o dia de Saint Patrick  comemorado por descendentes de irlandeses usando roupas verdes, e colocando um emblema de trevo na lapela.
      - Que horror! exclamou Cris rindo e, ao mesmo tempo, sentindo pena da amiga.
      - E isso no foi o pior, disse Katie, animando-se. Sabe, o meu vestido no tinha onde prender aquele p de alface. A duas riram.
      - Fiquei segurando aquilo a noite toda, na caixa, como se fosse o bandejo da escola. E a comida, nossa! No dava pra saber o que era aquilo! Puseram um molho 
de creme de cogumelos na carne, mas ningum conseguia comer. Eu mordisquei um pouco de salada, mas foi s. No tinha comido nada antes, e estava morrendo de fome!
      - Voc poderia ter comido seu buqu, se estivesse mesmo faminta, gracejou Cris.
      - Acredite, pensei nessa possibilidade!
      - E o que mais aconteceu? Vocs ficaram junto com o Rick e a convidada dele?
      - No, o Rick no foi. Eu no o vi l. Ningum disse nada. No sei o que est acontecendo com ele.
      - Estranho. Por que ser que ele no foi?
      - Quem sabe? Ah! Quer escutar a pior parte? A minha me, que tinha ficado toda entusiasmada de eu ir ao baile, depois resolveu que eu tinha de estar em casa 
antes da meia-noite! Voc acredita? Tivemos uma tremenda briga minutos antes do Leo chegar. A ele entrou e minha me ficou tirando umas fotografias idiotas. No 
sa sorrindo em nenhuma delas.
      - Katie!
      - Eu estava com tanta raiva! E meu humor no melhorou nada quando o Leo chegou usando - preste ateno! - um fraque branco, chapu prelo, de copa alta, e - 
prepare-se! - sapatos com detalhes alaranjados!
      -No!
      -Sim!
      - Que sujeito mais careta!
      - O Leo, no! Acabou sendo a alma da festa, como j lhe contei. Danou com metade das meninas. Tirou fotografia com pelo menos uma dzia delas. Todas queriam 
uma foto certinha e formal com o seu par, e outra foto maluca e divertida com o Leo.
      - Incrvel! No d pra acreditar que isso tenha acontecido com voc, Katie!
      Cris queria ficar penalizada com a amiga pelas dificuldades que ela enfrentara, mas no podia deixar de sentir-se aliviada de no ter passado por experincia 
to constrangedora.
      - Ainda no lhe contei o pior. Quando falei ao Leo que tinha de estar em casa  meia-noite, fiquei totalmente humilhada. Ento, quando deu onze e meia, tive 
de cham-lo e ele estava danando com a Rene.
      - Logo com a Rene! Ela vai infernizar sua vida por isso!
      - Ento, veja s. O Leo foi comigo at  limusine e mandou o motorista me levar pra casa e depois voltar pra apanh-lo.
      - No! bradou Cris, abafando um grito para no acordar sua famlia. Que horrvel!
      - Eu  que sei.
      - E o que voc fez?
      - Comi metade da comida que encontrei na geladeira e assisti a uma reprise do Magnum, na televiso.
      - Quer dizer, quando chegou em casa?
      - No; na limusine. Tinha uma geladeira e uma televiso na limusine!
      - Que barato!
      - Ainda bem que voc achou. Foi uma noite que no desejo repetir jamais. E como foi eu quem o convidou pra festa, tive de pagar os ingressos! Que roubada, 
hein?! No quero mostrar a cara na escola amanh.
      - Katie, no vai ser to ruim assim. A Rene j me vem chateando h umas duas semanas e tenho sobrevivido. Voc vai sobreviver tambm. Sempre consegue ficar 
por cima!
      - Sei no. Queria que voc tivesse ido. Ns teramos nos divertido, mesmo que os dois rapazes acabassem sendo uns chatos.
      Cris ficou a imaginar se o Rick tambm seria um par to deselegante, que iria passar o tempo todo flertando com as outras meninas. Contou a Katie sobre o bilhete 
que recebera no ginsio, na hora do teste para lder de torcida.
      - Se quer a minha opinio, acho que o Rick se convenceu de que um dia ele vai casar-se com voc.
      - Sem essa, Katie! Por que voc pensa uma coisa dessa?!
      - Os pais dele so bastante exigentes. Acho que ele gosta de voc porque  jovem, meiga, inocente e tudo o mais, e alm disso ele, provavelmente, acha que 
voc  o tipo de garota de que os pais dele gostariam.
      Como sempre, os comentrios de Katie fizeram com que Cris pensasse no assunto. Depois de desligar o telefone, ela saiu para a escada da frente, na varanda, 
e ficou ali sentada. Cantarolava a msica do filme, pensando em Katie, Leo, Rick e Ted. De repente, a frase que ouvira na escola dominical expulsou todos os outros 
pensamentos, e ficou martelando em sua cabea: "Deus queria que Davi fosse rei  e Jnatas sabia disso."
      - O que ser que isso significa? Por que fico pensando nisso? perguntou em voz alta, e percebeu que estava falando com Deus. Era hora de parar de ignor-lo 
e acertar tudo com ele. Comeou confessando suas faltas e pedindo perdo.
      - Perdoa-me, Senhor. Venho fazendo as coisas sozinha. D pra ver que tem sido assim, porque mesmo quando consigo o que quero, como, por exemplo, ser da equipe 
de lder de torcida, continuo me sentindo totalmente s. Sei que  porque no tenho dedicado tempo ao Senhor. Eu me arrependo de tudo isso.
      Sentiu um tremendo alvio. No como quem tivesse todos os fardos removidos, nada disso. Ainda havia um monte de problemas.Mas agora no se sentia como se estivesse 
totalmente s para resolve-los.
      Comeou pelo Ted.
      - O que devo acertar no meu relacionamento com Ted? No havia resposta, s a brisa calma da tarde balanando o jasmineiro, espalhando no ar o perfume da flor.
      O amor  paciente, lembrou Cris. Acolheu a frase no corao e a reteve ali por um momento, e em seguida disse a si mesma:
      -Voc tem de ser mais paciente. O relacionamento ainda no acabou. Espere para ver o que vai acontecer.
      No era bem uma concluso definitiva, mas dava para aceitar a idia. Cris tinha de ser justa com o Ted e deixar de lado o cime que a corroa.
      Afinal de contas, raciocinou, sou muito amiga do Rick, mas no do mesmo jeito que o sou do Ted. Por que ele no pode ser muito amigo de lasmim e ainda assim 
ser mais ligado a mim?
      A seguir pensou no Rick. O que ser que devo fazer com relao a ele? No havia resposta na brisa. Nenhuma idia lhe passou pela cabea.
      Algo mais ainda a perturbava. No era o Ted nem o Rick. Uma outra coisa, mas ela no conseguia imaginar o que seria.
      Ser que estou fazendo algo de errado, Senhor? Quero fazer o certo. Quero agradar ao Senhor.
      A nica coisa de que ela conseguia se lembrar era da equipe de lderes de torcida. Mas o que havia de errado nisso? Conseguira entrar na seleo. Certamente 
a Rene no iria perturb-la mais, e tinha feito uma boa amizade com Teri.
      Teri.
      Queria que ela tivesse entrado para a equipe. Ela  melhor do que eu; sei disso.  mais espiritual tambm. E esse ano vai ser o ltimo dela no colegial Queria 
que houvesse um jeito de a Teri entrar para a equipe.
      Cris tirou uma flor da trelia e arrancou-lhe as ptalas. Ainda no tinha certeza do que a perturbava. Tentaria descobrir o que era escrevendo no seu dirio.
      Recostada em sua cama, Cris abriu numa pgina em branco para escrever. Leu a ltima coisa que escrevera havia quase duas semanas sobre seu desejo de ser lder 
de torcida para Deus, mas, acima de tudo, de seguir esse seu sonho de maneira a dar um bom exemplo de crist.
      - Na verdade no fiz isso para o Senhor, no foi? sussurrou Cris, em meio ao silncio do quarto. Fiz pra minha prpria satisfao e com isso no me tornei 
mais parecida com o Senhor. Fiquei mais parecida com a Rene e as outras.
      Ento, tendo renovado sua consagrao, escreveu: Vou viver para o Senhor agora. Vou demonstrar a todas as meninas da equipe que sou crist. Serei um exemplo 
teu pra elas e pra toda a escola.
      Um voto sincero assim deveria ter deixado o corao de Cris em paz, mas isso no aconteceu. Ela ainda sentia uma sensao estranha, que persistiu durante toda 
a noite. Antes de dormir, ajoelhou-se ao lado da cama e disse:
      - Ainda sinto que h algo errado entre ns, Senhor, mas no sei o que , disse e aqui ela parou. O Senhor pode me fazer o favor de mostrar o que devo fazer 
pra consertar tudo, seja l o que for? Muito obrigada, meu Pai. Boa noite.
      Quando se levantou s sete, Cris sentia como se no tivesse dormido nada. Correu pelo quarto arrumando as coisas e esbarrou violentamente na cmoda, provocando 
uma enorme mancha roxa no quadril.
      No vestirio da escola, onde se encontrou com Katie, esta disse que sua manh tinha ido mais ou menos do mesmo jeito. Resolveram passar o dia juntas, ambas 
chateadas.
      Mas acabou sendo difcil para a Cris continuar chateada. Estava recebendo elogios de pessoas que nem conhecia, e na hora do almoo o Rick a procurou. Dava 
para notar, pelo seu jeito de andar, que ele a estava procurando.
      - Ol, de matar! gritou ele, ainda a uns metros de distncia.
      Algumas pessoas olharam em sua direo para ver com quem Rick estava conversando. Quase dava para ouvir os comentrios cochichados:
      "Olhe l! Aquela  a nova lder de torcida!"
      Cris olhou para a laranja que estava chupando. ... aquilo no era para ela. No gostava de chamar ateno. No queria que ficassem olhando a, quase invadindo 
sua privacidade.
      - Ol, de matar bradou Rick novamente, agora bem atrs dela, e pondo a mo em seu ombro.
      Ele inclinou-se para ficar mais prximo dos seus olhos. Ela virou-se para encara-lo, ciente de que havia gente observando.
      - Venha! disse ele, fazendo sinal com a cabea. Reservei um lugar para dois l adiante.
      Juntando seus objetos, Cris seguiu-o. Sentia-se como uma cadelinha numa coleira. Sabia que todos estavam falando sobre eles. Rick a conduziu para o muro "deles", 
onde haviam sentado naquele dia em que ele lhe passara uma verdadeira lio de entusiasmo para que ela entrasse para a torcida. Rick apoiou-se no muro. Cris permaneceu 
de p, abraada aos cadernos como se fossem um escudo. No tinha razo para ter medo dele; contudo, sentia-se insegura e intimidada.
      - Ento, como  que vai a minha l-l-l-? No lhe disse que voc conseguiria? Esteve perfeita. Absolutamente perfeita. Procurei voc depois, mas tinha desaparecido. 
Recebeu o meu bilhete? concluiu ele sorrindo, derretendo-a por dentro, com seus olhos castanhos.
      - Recebi; obrigada pelo incentivo. Provavelmente, eu no teria conseguido se voc no me tivesse dado essa fora toda.
      - Eu falei que voc passaria! Eu teria ficado muito decepcionado se voc tivesse desistido. Voc merece. Sabe, sinto que eu e voc estamos no mesmo nvel agora.
      Cris ficou sem entender o que ele quis dizer com essa afirmao.
      - Quer dizer que antes eu ainda no estava  sua altura? perguntou.
      Rick deu um meio sorriso.
      - Digamos apenas que agora voc  mais o tipo de garota que eu gosto.
      Do jeito como ele falou, no deu para saber se ele estava brincando ou falando srio. Seja como for, sentiu-se desconcertada. A ideia de estar " altura" do 
Rick deixou-a enojada.
      Que sistema de valores vazio, oco, voc tem! Tudo se resume ao exterior, s pra exibio! E quem eu sou por dentro, de verdade? Isso no tem importncia?
      - E ento, disse Rick, mudando de assunto, Katie disse que voc desistiu da festa por causa de seus pais.
      - Bem, na verdade, eles no tinham dito que eu poderia ir. Mas eu queria tanto que eles deixassem, que fui fazendo meus planos. Mas eles no deixaram, e por 
isso tive de cancelar com voc.
      Cris lembrou-se da mgoa que sentira quando o Rick desligou o telefone no momento em que ela tentava explicar. Queria que ele lhe pedisse desculpas, e deu 
a dica:
      - Sinto muito que tudo tenha acontecido do jeito que aconteceu. Como eu lhe disse no telefone naquele dia, estou muito sem graa.
      - Deixa pra l, interrompeu Rick, sem pedir desculpas pela sua parte. Ainda posso ter o primeiro lugar, a preferncia no dia do seu aniversrio. At j anotei 
na minha agenda. Vinte e sete de julho vai ser uma noite inesquecvel pra voc.
      Meses atrs, quando o Rick perguntara se poderia sair com ela no dia em que completasse dezesseis anos, seu rosto se avermelhara e ela se sentira honrada. 
Agora sua vontade era empurr-lo do muro por sua arrogncia.
      Preferncia nada! Quem voc pensa que sou, que me enfia em qualquer molde que quer? Talvez eu no queira sair com voc! E voc no podia pedir desculpas por 
ter batido o telefone na minha cara?  orgulhoso demais pra dizer que se arrepende;  esse o seu problema, Rick Doyle!
      Ah! se ela tivesse coragem de dizer isso para ele! Mas, no; permaneceu em silncio. Rick balanava as pernas para frente e para trs, batendo os calcanhares 
no muro.
      - Ouviu falar sobre a festa? perguntou ele. Pelo que soube, no perdemos grande coisa.
      - Por que voc no foi? perguntou Cris, com um tom quase de acusao.
      Rick parecia surpreso.
      - De que adiantava ir sem voc?
      Cris deu-lhe uma olhada firme como quem dizia "Por que voc no diz simplesmente a verdade?!" Ele murmurou algumas palavras sem nexo antes de desviar o olhar, 
e confessar:
      - Est bem, eu conto pra voc, Cris. Na verdade, j deveria ter-lhe falado, continuou ele baixando a voz. Meus pais no queriam que eu fosse.
      - Rick, no precisa se envergonhar disso. Se ainda se recorda, foi essa a razo pela qual eu tambm no pude ir.
      - Tem mais, continuou Rick. Meus pais disseram que eu s poderia ir com uma moa crente, de preferncia da nossa igreja. E eu mesmo  que deveria cobrir todas 
as despesas.
      - Ento por que no foi com uma das meninas da igreja? Ele fitou-a como se a pergunta fosse totalmente boba.
      - Porque nenhuma delas  o meu tipo. Sabe, tipo l-l-l-. Alm do mais, sabe quanto custa? At que se alugue um fraque, compre flores e tudo o mais, vai-se 
metade das minhas economias. Por tanto dinheiro, eu no iria com uma garota que ficasse a noite toda dando risadinhas com as amigas.
      Fazia sentido. A personalidade do Rick ia ficando mais transparente para Cris  medida que ele falava. Katie tinha razo. Ele queria mesmo transform-la no 
"seu tipo de garota". Algum que exteriormente tivesse todos os atributos. Uma menina que lhe desse total ateno e o seguisse por todo lado, tmida e quietinha, 
deixando que ele fosse a estrela.
      - Sabe, Rick, falou sentindo o corao bater forte, no tenho certeza de que sou o tipo de garota que voc gosta.
      - Claro que ! Ou pelo menos vai ser! Eu posso esperar.
      - Ento vou dizer-lhe com outras palavras. No sei ao certo se voc  o tipo de rapaz de que eu gosto. Veja bem; eu quero algum que seja paciente e bondoso, 
e no ciumento. Um cara que saiba que o que somos por dentro  mais importante do que o que somos por fora. E acho que voc no  assim. Mas poderia ser, acrescentou 
ela. Eu posso esperar.
      Em seguida virou-se e saiu, andando rpido e pisando forte, com o corao em disparada.
      Coroas de Louros 
      12
      - Na quarta-feira  tarde - amanh, no na semana que vem, disse o professor de Histria lendo um aviso, haver assemblia geral no auditrio s quatorze horas. 
O time de futebol do ano que vem ser apresentado, e sero anunciadas as lderes de torcida para o prximo ano.
      - ; como se j no soubssemos... disse uma menina na primeira fileira.
      - Agora abram o livro no captulo dezessete, e como sei que todos o leram ontem  noite, conforme lhes pedi, quero que passem o resto da aula respondendo s 
perguntas do final do captulo.
      Surgiram as reclamaes de sempre e o barulho de gente folheando o livro. Cris apressou-se em fazer a tarefa. J tinha muito dever de casa e no queria levar 
mais. Mas s conseguiu responder metade das perguntas. No fim, o professor disse que quem no conclusse poderia entregar o resto no dia seguinte, e ainda teriam 
de ler o captulo dezoito. Cris resmungou baixinho e remexeu em seus objetos.
      - Parece que agora, que chegou o fim do ano, os professores esto despejando tudo sobre a gente, comentou um rapaz ao lado de Cris, quando saam da sala. Acho 
que eles querem dar essa matria toda pra cobrar da gente no exame final.
      - No quero nem pensar nisso, replicou Cris, descendo o corredor com o rapaz.
      No sabia o nome dele, e ele passara o ano inteiro sem falar com ela. Era estranho que no final do ano tivesse ficado to amigvel. Naquele instante, Cris 
avistou Teri em frente do seu escaninho.
      - Com licena, falou. Quero ver como a Teri est passando.
      - Pois no, disse o rapaz depressa. Sinto pelo que aconteceu com o p dela. Mas ainda bem que voc conseguiu. Parabns!
      Ento  isso! De repente ele est prestando ateno em mim porque vou ser lder de torcida. Como as pessoas so superficiais!
      - Sem muletas? perguntou Cris para a Teri, aproximando-se.
      - Sem muletas. Manquei o final de semana todinho, mas estou melhor agora.
      - Ainda bem, disse Cris.
      - , mas o bom mesmo vir amanh, comentou Teri, sem um pingo de inveja. Sei o quanto voc quer ser lder de torcida, Cris, e fico contente por ter conseguido.
      - Ainda no foi anunciado, Teri.
      - No, mas todo mundo sabe quem passou. No vai ter surpresa este ano. Quer dizer, est na cara, no est?
      - E voc no est nem um pouco chateada? Voc se esforou tanto e  to boa nisso, e vai ser seu ltimo ano. Voc no ficou nem um pouco zangada ou irritada?
      Teri sorriu.
      - Um pouco. Sabe, eu achava que ser lder de torcida era o que Deus queria que eu fizesse no ano que vem; mas certamente ele tem outros planos.
      O sinal tocou alto, bem acima de onde elas estavam. Teri deu um tapinha no brao de Cris antes de seguir para a sala de aula, e disse:
      - Amanh vou estar na primeira fileira, torcendo por voc de todo o corao, Cris.
      Naquele instante, Cris compreendeu o que tinha de fazer.
      *****
      Aps as aulas, Cris encontrou Katie  sua espera, perto do armrio.
      - Onde voc estava na hora do almoo?
      - Tive de conversar com algum.
      - Com quem? com o Rick? insistiu Katie.
      - No, com a Prof.a Janet. Umas coisas sobre a equipe de lderes.
      - Voc est empolgada com a assemblia de amanh? O atleta do ano chama os nomes das meninas, e elas sobem ao palco e ficam em fileira na frente dos jogadores 
de futebol.  um show e tanto.
      Como Cris no fez nenhum comentrio, Katie continuou:
      - Ah! Eu lhe contei quem vai ser mascote no ano que vem? Era pra ser segredo at a hora da assemblia, mas  claro que me contaram porque queriam saber se 
meu uniforme de mascote de ona, do ano passado, serviria pra ele.
      - Ele?
      - Sim, Clifford Weed! D pra acreditar?!
      - Acho que no o conheo.
      - Ele  enorme. Vai ser uma "ona" excelente, mas eles vo ter de fazer uma nova fantasia. Vamos l pra casa hoje  tarde?
      - Estou com tanto trabalho de casa! Tenho de me concentrar nos estudos. Quero terminar tudo durante a semana porque a minha me disse que o Ted telefonou ontem 
depois que fui dormir. Ele vem no fim de semana.
      - Voc tem uma sorte!
      - Sei no.
      - O qu?! Voc no est ansiosa pra v-lo?
      - Sim e no. Quero v-lo e passar algum tempo em sua companhia, mas ainda no estou preparada pra ouvi-lo falar sobre a festa de formatura, lasmim, e todas 
essas coisas.
      - Bem, depois do fiasco que foi minha ida  festa com o Leo, eu lhe digo sinceramente que, seja l o que for preciso pra conquistar um cara como o Ted, bem, 
FSP.
      - O qu?
      - Voc sabe, FSP: "faa sem pestanejar"! Voc tem de fazer tudo que puder e no desistir nunca! Existem muitos Leos neste mundo, mas poucos Teds; muito poucos.
      - Sabe o que me deixa grilada, Katie?
      - O qu?
      - s vezes voc acerta na mosca!
      - S s vezes?
      As duas riram, e Cris disse:
      - Sim, s s vezes. Hei! Tenho de ir embora. Guarde um lugar pra mim na assemblia amanh, se chegar mais cedo. Sente-se na fileira da frente, se tiver lugar.
      - Fileira da frente? Por qu? Quer estar bem perto, pra no precisar de correr muito at o palco, quando chamarem o seu nome?
      -  mais ou menos isso.
      Naquela noite Cris ouviu a me conversando ao telefone com Marta.
      - Estou-lhe dizendo, ela tem talento natural! Nem reconheci minha prpria filha quando da estava fazendo o teste para lder de torcida. Estou muito feliz com 
ela.
      Cris ouvia calada, enquanto a me continuava gabando a sorte da famlia. Tudo estava indo muito bem; todos estavam felizes e abenoados. Seu comentrio final 
foi uma surpresa para Cris:
      - Tenho de admitir, Marta, que voc e Bob estavam certos quando nos convenceram a mudar para a Califrnia. O Norton est muito satisfeito nos Laticnios Hollandale, 
a leitura do David melhorou muito e a Cris, bem, s posso dizer que temos imenso orgulho de como ela vem-se saindo.
      A me desligou e foi preparar o jantar. Cris seguiu-a at a cozinha.
      - Me, comeou sem pensar bem como iria colocar as palavras. Voc me amaria do mesmo jeito se eu no fosse lder de torcida? Quer dizer, se eu no tivesse 
boas notas ou no conseguisse entrar na equipe, voc e papai teriam orgulho de mim assim mesmo?
      - Como pode fazer uma pergunta dessa?! Voc sabe que ns a amamos e temos orgulho de voc, no importam as circunstncias.
      - Sei, mas agi muito errado com aquela histria da festa. 
      - Acabou dando certo, Cris, e voc aprendeu com a situao.  E  isso que importa.
      - Mas, e a liderana da torcida? Eu ouvi voc falando com a tia Marta e... e se eu no for lder?
      A me recostou-se no balco e colocou sobre ele a lata de ervilhas que pegara para abrir. Uma expresso de ternura tomou conta do seu rosto.
      - Cris, tudo que eu e seu pai queremos para voc  que seja como Deus quer que seja. Se com isso voc tem de tornar-se lder de torcida, ou jogadora de futebol, 
ou presidente do clube de Matemtica...
      Cris fez uma careta.
      - Clube de Matemtica?
      - Est bem, talvez no o clube de Matemtica. A questo  que isso no tem importncia. O que realmente conta  obedecer ao que Deus exige de voc.
      Cris sentiu convico nas palavras de sua me. Ela nunca se expressara desse jeito antes. Principalmente no que dizia respeito  obedincia a Deus.
      - Por que pergunta, Cristina?
      Cris pensou em explicar tudo  me, mas no encontrou as palavras certas.
      - Sei l. Estava s matutando...
      A me abriu a lata e pediu a Cris que temperasse a salada.
      - Tem dois ps de alface na geladeira. Use o menor primeiro.
      Trabalharam juntas sem falar nada de importante. Cris sentiu que lhe eram agradveis esses espaos abertos no seu relacionamento com a me, quando as palavras 
desta lhe tocavam o corao. No desfrutavam de muitos momentos assim e isso fazia com que os poucos que tinham fossem bem significativos. Cris sentia-se mais adulta, 
como se as duas estivessem tornando-se mais amigas, mais ntimas uma da outra.
      Na manh seguinte tiveram outra oportunidade de estreitar ainda mais sua amizade, quando a me se ofereceu para arrumar seu cabelo. A princpio, Cris rejeitou. 
Mas viu um olhar de decepo no rosto da me, e rapidamente emendou: 
      - Claro, vai ser timo.
      Intimamente admitiu que, se no gostasse, poderia desmanchar o penteado quando chegasse  escola. Mas acabou ficando perfeito. E Cris comentou:
      - Est exatamente do jeito que vi numa revista, mas no sabia como se fazia isso. A me riu e respondeu:
      -  uma antiga trana de menina da roa que se usava na Alemanha. Eu usava o meu cabelo desse jeito o tempo todo.
      Cris admirou o penteado no espelho. A me tinha comeado uma trana francesa, bem acima das orelhas, e ajeitou o cabelo deixando-o como um halo suave em volta 
da cabea. Prendeu a ponta atrs da orelha, no comeo do crculo. Cris enrolou as franjas e borrifou laqu nelas, contentssima com o jeito que ficou, confiante 
em que estava linda.
      - Vou  assemblia hoje, disse a me. Vou sentar mais atrs. Assim voc no tem de me procurar, nem nada.
      - Est bem, me. Mas se no puder ir, no tem problema.
      - J ajeitei tudo para eu poder ir. Hoje  um grande dia para voc, Cris. Disse isso e sorriu para a imagem da filha refletida no espelho. Sinto-me como se 
tivesse acabado de colocar uma coroa de louros na sua cabea.
      - Uma o qu? perguntou Cris, fitando-a e colocando pequenos brincos de prola nas orelhas.
      - Ah! sei que  bobagem, mas eu estava-me referindo  Grcia antiga, onde os atletas que ganhavam uma prova recebiam uma coroa de folhas de louro como recompensa.
      - Entendi. Ainda no chegamos nessa parte na aula de Histria.
      - Vou ver se o David est pronto, disse sua me, parecendo contente com a vida. Vocs tm de sair dentro de cinco minutos.
      -Ah, me...
      A me voltou-se para ela, o rosto suave e cheio de ternura, totalmente acessvel.
      - Me, lembra do que voc falou ontem sobre como devo obedecer a Deus?
      -Sim.
      - Bem, s quero dizer que se eu fizer uma coisa que no tenha muito sentido pra ningum, bom, talvez seja algo certo, mesmo que parea esquisito.
      A me olhou-a com expresso de quem no entendeu nada. Cris tentou repetir o que dissera, mas de outro jeito.
      - O que estou querendo dizer  que desejo obedecer a Deus e fazer a vontade dele, mas, em certas situaes a obedincia s far sentido pra mim, e no para 
os outros. D pra entender?
      - Acho que sim. Seu corao est aberto para o Senhor, e  isso que importa. Agora v, seno chegar atrasada!
      Cris verificou mais uma vez sua aparncia no espelho. Em seguida abaixou-se e remexeu em algumas roupas no fundo do armrio. Procurou a lata decorativa e, 
quando tocou nela, o Puf caiu do seu posto de guarda.
      - Ol, Puf! Sinto muito ter deixado voc de lado por tanto tempo.
      Colocou o Puf na cama e destampou a lata.
      - Cris! Est na hora de ir!
      - J vou!
      Tomando cuidado para no amassar os botes de cravo, enfiou a mo entre as ptalas secas e pegou a pulseira de chapinha gravada "Para Sempre".
      Pegou depressa os livros, passou correndo pela porta e desceu aos pulos a escada debaixo da trelia do jasmineiro, pronta para tudo o que esse alegre dia de 
primavera havia reservado para ela.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Surpresa! 
      13
      
      O auditrio comeou a ficar cheio de estudantes para a assemblia que se realizaria s quatorze horas. Cris procurou Katie entre os que estavam sentados na 
primeira fileira, mas ela no estava l. Entrou na segunda fileira, e ficou a aguardar em silncio.
      No fundo do corao, murmurou uma orao: Pai celeste, quero ser como o Senhor quer que eu seja. Quero agrad-lo. O Senhor ...
      A orao foi interrompida por uma voz conhecida.
      - Ol! Como vo as coisas?
      - Ted? Ted! gritou Cris dando um salto e, por impulso, o abraou. O que  que voc est fazendo aqui?
      - Ouvi dizer que hoje seria um grande dia pra voc, falou com um sorriso largo e olhos lmpidos, parecendo empolgado.
      De repente, percebendo que todos estavam olhando para os dois, Cris fez sinal para o Ted sentar-se ao seu lado. Ele passou o brao por trs da poltrona dela, 
fitando-a, sorrindo e demonstrando que sentia muito orgulho dela.
      - Gostei do seu cabelo, disse. Parece um anjo com um halo.
      - Obrigada. Mas como voc soube da assemblia hoje? perguntou Cris com um misto de empolgamento, mal-estar e confuso.
      - Eu estava na casa da sua tia quando ela conversou com sua me. Resolvi fazer-lhe uma surpresa. Consegui? 
      Ele parecia quase bobo de tanta animao.
      - E como! Ainda no consigo acreditar que voc est aqui. Mas Ted, tem uma coisa que eu quero lhe dizer... sobre o anncio das lderes de torcida.
      Desta vez foi a voz de Katie que a interrompeu.
      - Cris! Ted? exclamou a garota com expresso de surpresa.
      Ted! Cris?
      - Sei, falou Cris, sorrindo. Uma surpresa, hein? Quer sentar-se conosco?
      Katie chegou at onde eles estavam e sentou-se no lugar vago do outro lado de Cris, enquanto Ted tirava um envelope do bolso.
      - Quer ver as fotos da festa de formatura? As emoes de Cris foram l embaixo. Como poderia dizer no, principalmente com a Katie encostada do outro lado, 
dizendo:
      - Claro! Deixa eu ver!
      - A me da lasmim tirou esta no apartamento antes do jantar de formatura.
      Ted tirou a foto do envelope como se fosse um rico tesouro e entregou-a para a Katie. Cris fechou os olhos por um instante, depois abriu-os e olhou a foto 
que Katie estava examinando. Todo o cime desapareceu. Seu primeiro pensamento quase saiu pelos lbios, mas ela o reteve em silncio: Essa  a. lasmin?
      No retrato via-se o Ted, alto e elegante, de fraque, com uma gravata borboleta verde e uma faixa da mesma tonalidade. Estava mais bonito que um cavaleiro andante 
de brilhante armadura. lasmim trajava um vestido longo de cetim azul, com mangas bufantes. A saia encobria a parte de baixo da cadeira de rodas e no seu colo havia 
um nico boto de rosa branca, de haste comprida, com uma fita azul.
      lasmim no tinha cabelo loiro esvoaante, nem era uma "rainha da festa", como Cris imaginara. Tinha cabelo escuro, bem curtinho. Suas mos permaneciam inertes 
no colo, os dedos retorcidos e paralisados. E embora estivesse maquiada,  seu rosto era comum, sem graa, simples.
      Mas o sorriso! Seu corao brilhava no rosto atravs dele.
      - No  linda? perguntou Ted.
      Katie afastou a cabea, de modo que o Ted no percebesse, e lanou um olhar duvidoso para Cris. Esta sabia exatamente o que Ted queria dizer, e respondeu com 
sinceridade:
      - Sim, ela  linda.
      lasmim merecia ter uma noite de festa especial e merecia pass-la com o Ted. Armando-se de coragem, Cris perguntou:
      - E ento? Vocs se divertiram muito?
      - Ns no fomos ao baile. Fomos s ao jantar, disse Ted. No sou muito de me arrumar, no tenho pacincia para essas coisas. Mas ouvi uma das amigas da lasmim 
dizer que iam jantar na praia de Laguna antes da festa. Pensei que o melhor presente que eu poderia lhe dar seria convid-la. Ningum mais teria essa idia. Mas 
esse  o tipo de presente que gosto de dar.
      Cris apalpou o metal frio da sua pulseira de chapinha gravada "Para Sempre". Entendeu que o Ted planejava com cuidado os presentes que oferecia. Naquele momento, 
sua pulseira se tornou ainda mais significativa para ela.
      - Ento vocs no foram ao baile?
      Cris se deu conta de que nem ela, nem Rick e nem Ted tinham ido. No fim, ela estivera numa verdadeira montanha russa emocional por nada. Ted fitou-a como se 
no entendesse sua pergunta.
      - E por que eu teria ido ao baile? Quer dizer, voc me daria uma boa razo pra isso?
      Quando Cris tentara convencer os pais parecia ter muitas razes. Mas agora, fitando os olhos claros azul-prateados do Ted, e ouvindo aquela pergunta sincera, 
uma atitude tpica dele, ela no conseguiu lembrar de nenhuma.
      - Posso lhe dar vrias razes para no ir, interveio Katie. Ted sorriu e recolocou a foto de lasmim no envelope.
      - Estou doido pra apresent-la a lasmim, disse ele a Cris. Falei a ela que qualquer dia desses eu e voc arrumaramos um caf da manh na praia pra ela. S 
que dessa vez as gaivotas no comeriam nada porque a tarefa dela seria de afugent-las.
      - Voc contou pra ela do nosso caf da manh no Natal passado? perguntou Cris.
      - Sim. Ela est ansiosa pra conhecer voc. Sabe, ela perguntou se no estava chateada por eu lev-la para o jantar de formatura, em vez de levar voc, e expliquei 
que voc no  como as outras garotas.
      Cris quase comeou a dizer ao Ted que, na verdade, ela cometera mais erros do que acertos nessa questo, mas a cortina se abriu no auditrio barulhento e abarrotado 
de gente.
      Uma moa sentou-se na poltrona diretamente em frente  de Cris, depois virou-se, e disse:
      - Ol! Espero que voc no tenha pensado que eu iria perder isso a! 
      Era a Teri.
      - Oi! respondeu Cris cumprimentando-a e apresentando-lhe o Ted.
      O treinador de futebol comeou a apresentar o time do ano seguinte, e logo o palco se encheu de jovens gritando e batendo nas costas uns dos outros, incentivados 
pela escola.
      - E agora, gritou o treinador ao microfone, o melhor atleta do Colgio Kelley apresentar as lderes de torcida do prximo ano!
      Rick Doyle correu ao palco com seu elegante casaco esportivo, seu meio-sorriso nos lbios, demonstrando o quanto adorava esses aplausos que vinham do auditrio.
      Ser que o Rick vai me ver sentada aqui com o Ted? Ser que ele vai notar? E eu me importo?
      Cris comeou a ficar nervosa. At ento estava tima. Sabia que plantara as sementes certas no jardim do corao, mas agora, quando todos aguardavam a colheita, 
sentiu o estmago apertar. O que pensariam dela?
      Rick foi ao microfone, parecendo estar  vontade na frente da multido, e acenou pedindo que parassem de aplaudir.
      - Est bem. Tenho uma lista aqui, disse Rick levantando um envelope.  medida que eu for anunciando os nomes das lderes de torcida, subam e fiquem aqui na 
frente desses rapazes, que vocs estaro animando para conquistarem a vitria no prximo perodo letivo.
      Rick abriu o envelope, correu os olhos pela lista e, em seguida, disse:
      - Rene Duval!
      Fingindo surpresa, Rene ergueu-se de um salto e subiu ao palco, dando um abrao no Rick, que o retribuiu sem grande entusiasmo. Continuou olhando a lista. 
Cris observou que ele virou o papel para ver o verso. 
      Est procurando o meu nome!
       Rick citou os outros nomes, em tom alto e claro. Parou antes de ler o ltimo.
      Katie inclinou-se, apertou a mo de Cris, e cochichou:
      - Prepare-se!
      - E nossa ltima lder de torcida : Teri Moreno! Foi como se o mundo inteiro estivesse olhando para Cris, comentando a surpresa.
      - Teri! exclamou Katie zangada.
      Teri olhou as pessoas  sua volta, pasmada.
      - M... m... mas, Cris! gaguejou.
      - V para a frente, Teri. Ele chamou o seu nome.
      - Mas por qu? indagou Teri, levantando-se depressa, mas fitando a amiga  espera da resposta. Cris respondeu sem vacilar:
      - Porque Deus queria que voc fosse lder da torcida e eu sabia!
      Atnita e ao mesmo tempo vibrando de alegria, Teri correu - saltou - para o palco, enquanto as outras meninas, sussurrando entre si, batiam palmas. Ela deu 
um salto espetacular e recebeu os parabns das outras concorrentes - todas muito surpresas. Depois, encarando o auditrio, Teri deixou que se lhe aflorasse aos lbios 
seu maravilhoso sorriso enviando uma corrente de total alegria  Cris.
      Cris ficou um longo tempo aplaudindo at as mos doerem, sem ligar para Katie que lhe perguntava insistentemente.
      - Foi voc que fez isso, no foi? Voc desistiu do lugar que era seu pra ela poder ficar na equipe, no foi?
      Cris fez que sim, e piscou os olhos para limpar as lgrimas de alegria.
      A voz do Rick soou alta no microfone:
      - Algumas pessoas colaboram com nosso colgio de uma forma que ningum percebe. Elas sabem quem so - e aqui ele se deteve e olhou na direo de Cris - essas 
pessoas raramente recebem o reconhecimento que merecem.
      A multido comeava a se aquietar.
      - Quero dizer a essas pessoas altrustas que o que penso delas  isto.
      Em seguida, amassou a lista e enfiou-a no bolso. O auditrio estava em profundo silncio. E diante de todos, devagar, com dramaticidade, com gestos pausados, 
ele comeou a bater palmas, os olhos grudados na Cris.
      Katie levantou-se, olhando diretamente para Cris, aplaudindo tambm. Num instante, todo o corpo estudantil ps-se de p batendo palmas. Instintivamente, Cris 
tambm se ergueu, surpresa de que as palmas fossem para ela. Ted colocou o brao no seu ombro e, em meio ao barulho, falou alto para que ela escutasse:
      - Esto aplaudindo voc, Cris. Eles sabem reconhecer uma verdadeira crist, disse.
      Mas depois aproximou-se mais e acrescentou:
      - Ou melhor, reconhecem o verdadeiro amor! 
      Cris sentiu o calor da respirao do rapaz em seu pescoo. Sussurrou-lhe ento ao ouvido:
      - Tem certeza?
      Ted soltou uma risada e a abraou com fora.
      - Se tenho certeza? Simplesmente d uma olhada no palco.
      Cris viu Rene e as outras garotas sorrindo e, dando-lhe uma salva de palmas, demonstravam admirao por ela. Rick tambm aplaudia, parecendo um rapaz que 
estava mesmo disposto a esperar. Lgrimas escorriam pelo rosto de Teri e seu sorriso iluminava o auditrio. Estava radiante de felicidade. Absolutamente radiante. 
Como um anjo.



1
